Quando lembro de ti,
penso nos relicários antigos,nos broches de ouro,
nas delicadas sedas e cetins.
Penso nas lamúrias e queixas
de uma vida de perdas
e ganhos nunca reconhecidos,
nas paixões nunca sentidas
ou permitidas.
Não mais existem as avós antigas,
com seus dedos delicados e frágeis,
porém hábeis,
tecendo em gatilho
pontos perfeitos de crochê.
Como era mágico te ver criar!
Ouvir tua inteligência tão arguta.
Quisera tanto poder dizer-te hoje que te amava,
apesar de ser pessoinha difícil
e astuta.
Quando lembro de ti,
recordo a mim fazendo parte de
um tempo anterior.
Onde havia histórias de surras, desamores,
pontos e nós,
filhos não amados e bisavós.
Tudo fazia mais sentido então.
Hoje adulta, com crianças a criar,
ainda pego-me querendo ser
simplesmente a tua neta.
Minha avó. Minha própria história.
Mãozinhas de aranha,
tez feita de leite,
meu relicário antigo,
meu broche de ouro
minha delicada seda e cetim!
AC

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