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sábado, 13 de dezembro de 2025

DESAMOR

 

Se me mandares ir embora,

eu simplesmente irei.

Nao aguardarei teu momento de indecisão

tampouco teu arrependimento. 

Simplesmente irei.

Juntarei minhas mágoas e feridas,

aqueles nacos de alma rasgada,

de coração despedaçado, 

e entre choros e medos,

raivas e convulsões,

tomarei meu caminho,

nesse rumo serpenteado e talvez sem volta.

E no caminho,  chorarei por você e por mim,

pelas manhãs em que não acordaremos juntos,

pelas conversas que não teremos mais,

pelo amor que mais uma vez terá capitulado.

As histórias de amor existem para serem terminadas. 

O amor se inicia e desde o primeiro dia, caminha para o fim.

E no caminho para o qual você me mandou seguir,

tão vazio desse amor,

tão repleto de descuidado,

eu prosseguirei convulsionando,

envolta na sombra triste das lágrimas que me caem aos olhos.


AC


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O MUNDO

Quando eu estiver triste,

talvez eu não esteja: eu seja.

E por que os cronicamente tristes têm de ser evitados?

O medo da dor é contravivenciário.

Não se vive sem dor, pois ela reside em tudo:

- na contração do nascimento;

- nas inquietudes da existência;

-nas perguntas essenciais, sempre caladas.

Afinal, alguém já explicou porquê viemos, somos ou estamos? Ou pra onde iremos?

No momento da vinda, o amor se reveste,

logo de antemão, do medo da perda.

É a dor pressentida, antecipada.

E no momento da ida,  a dor é visceral,

corte deliberado e profundo na carne.

No cerne, no centro, na instância, no segundo,

na inconstância há luta, há pó, há pouco.

No que sobra, no que nunca se atinge.

No que falta, no que cala e restringe. 

Portanto, não venha me apontar minhas dores, pois são belas e justas.

Cultivo-as com esplendor, porque são o retrato cabal da minha, tão minha, humanidade. 


AC

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

PEQUENA AUTOBIOGRAFIA


Ontem, revolvendo fotos familiares queridas e antigas, deparei-me com um classificador pequeno de desenhos toscos meus, bem infantis, guardados por meu pai.

Havia desenhos muitos ruins de várias idades, e os primeiros sempre com uma dedicatória carinhosa que dizia algo como, " para painho, dedico esses desenhos" ou coisinhas do gênero. 

Um bilhete animadamente inesperado continha a seguinte frase, em.letras bem pequeninas, mas não por isso, menos irritadas

" Painho, faça o favor de arrumar o lençol e a fronha do meu quarto qdo dormir nele".

Editor de jornal e sem uma relação minimamente funcional com minha mãe, meu pai usava meu quarto para dormir praticamente o dia todo, exceto as noites, qdo partia pra redação do jornal, deslocando-me desde cedo para dormir na cama de casal com minha mãe. 

Meu pai nunca foi um pai presente, não era desafetuoso de todo, porém nunca me levou um dia sequer à escola, e foi um pai " de 15 em 15 dias" que me levava ao shopping qdo se separou de minha mãe. 

Entretanto, e para minha surpresa, ali estava, guardadinho, uma mini coleção de desenhos bobos meus, numa singela demonstração de afeição mínima, presumivelmente carregado de algum sentimento de orgulho, por serem desenhos endereçados a ele, numa nítida relação parental filha-pai.

Meu pai foi um homem que viveu bem sua vida. A sua, e a de mais ninguém. Dos 4 filhos, talvez por ser mulher, recebi um pouco mais de sua afeição e pude ter contato e ver se revelar pela sua linda escrita e seu jeito um tanto tresloucado. Mas, confesso, aquele comportamento bizarro, aquela quebra de regras, de uma certa forma sempre me fascinou.

Hoje fui tentar tirar um cochilo de tarde, e lá se foram facilmente 3 horas do meu dia.

Nos meus sonhos, um tanto qto distopicos, sempre em casas ou lugares em que nunca morei, minha mãe sempre está lá. 

Nao a mãe dos 80 anos, mas a mãe dos 40 anos, aquela mãe linda, preocupada, ativa e atuante, a minha heroína e matriarca.

Quando cresci, e sobretudo cresci após os 30, a luz de minha mãe foi se ofuscando em varios sentidos. Talvez enxergar ela ir abrindo mão aos poucos de viver uma vida, embora sempre fosse muito viajadeira graças a Deus, me fez ir perdendo o encanto de uma mãe maravilha, ousada e absolutamente corajosa.

Sempre me senti muito amada por minha mãe, e da vida posso afirmar com 100% de certeza que tive, sim, muito amor, apesar de um irmão que não se comunicava com ninguém dentro de casa e uma certa promessa quebrada de uma verdadeira família, após a separação dos meus pais.

Tenho recordações de viver uma solidão absoluta dentro de mim. Muitos anos mais nova que meus irmãos, sem crianças próximas para brincar, acho que me tornei solitária e pragmática muito cedo. Apesar do amor da minha mãe, senti a falta da presença de um pai, e isso foi uma dor surda que demorei anos a mesmo descobrir. Acho que me tornei mestra em me fazer autossuficiente da necessidade efetiva de um pai.

Bem, me vinguei de meu pai qdo, na minha formatura, fiz minha mãe entrar de braços dados comigo e o deixei, caladinho porém ciente das minhas ações, nos assistindo sentado no auditório. 

Minha mãe sempre está nos meus sonhos, aquela mãe que eu reverenciava e referenciava. Aquela q resolvia tudo, que era uma protagonista, e eu algo entre abnegada e irritada, aceito esse papel de filhinha da mamãe nos meus sonhos.

Nos meus sonhos, meu pai nunca está lá. 

O tempo passou e eu não me tornei uma boa filha. Resumindo e olhando para um breve " trás ", não aceitei substituir aquela mulher incrível e heroína por uma senhora frágil, dependente emocionalmente, angustiada e ansiosa. Ah, mãe! Nem duas filhas que tive parecem ter lhe feito feliz. E como eu chorei sozinha, entre a culpa e o desejo de simplesmente lhe ver um pouco feliz em sua velhice, realizada com a grande mulher que você foi em seu próprio tempo.

Aprendizados? Inúmeros.

--- meus filhos terão o melhor dos pais

--- não serei para meus filhos um laço de dependência emocional.

Os pais são um espelho em que muitas vezes nos vemos, reconhecemos traços tão comuns! Mas também que serve para nos guiar das escolhas menos afortunadas, numa tentativa de correção de direção. 

Hoje, com duas filhas, agradeço imensamente à minha mãe o amor q com ela aprendi e repassei, com a pequena correção de rota de entender que os filhos são seres emocionalmente alforriados de nós. 

E meu pai, apesar de tanta sua ausência, me ensinou a não ser tão contida assim, permitindo-me um pouco de loucura e digressão.


AC

terça-feira, 5 de agosto de 2025

MEU JARDIM E O TEMPO


Meu jardim de moças crescidas,

amores-perfeitos de cachos

que ficaram para trás. 

E como são belas,  cada flor em seu recanto!

Uma vinda como aurora,

boas-vindas e surpresa,

sensível como a pele que percebe 

o primeiro sol da manhã. 

Outra vinda como fechamento, 

conclusão e destino,

alegre como doces vermelhos e sorrisos.

E nesse amor há tanto

de aprofundamento,

de genuíno,

de arrebatador,

que meu tempo passou a contar essas horas

em que visito meu jardim,

e nele rego,

abençoo e regozijo!

AC

terça-feira, 15 de julho de 2025

Quatorze


Guardo a lembrança daquele beijo,

meu pequeno afeto perpetuado, 

no gosto da tua língua doce, a me procurar.

E como te quero.

Guardo o beijo que, ao ser beijado,

paralisa em suspensão um ar represado,

uma súbita desaceleração do tempo,

toque contínuo e aveludado. 

É bom lembrar.

Porque doce, e agora eterno, e mais

que isso, terno,

sorvido na lentidão dos que degustam

um mágico momento.

As auroras deviam nascer sob beijos assim,

trazendo do dia o frescor

e a esperança posterior

- como quase uma certeza-

de felicidade acumulada.

Vinho maturado, mel, cálice sagrado

de onde se bebe a formosa fruta,

do amor. 


AC






quinta-feira, 8 de maio de 2025

DONDE

 

Que é, para mim, o nosso amor?

É a tua carne, e como te quero,

desejo contínuo e insaciável.

E repetidamente desejando tua boca

e as carícias melindrosas e certeiras,

todo teu desejo retido em mim.

(E quero teus movimentos, coordenados,

como quero teus risos, refugiados).

No avançar de braços e pernas

me reténs num looping acelerado,

onde me arrastas e me contrarias,

e quando tudo enfim se passa, logo se reinicia.

Nesse pequeno paraíso privado, 

onde tudo é profano e também sagrado,

tu estás, consagrado!

Deitado em meu corpo,

ainda quente do amor, que só se delicia.


AC








ÓCIO

 

Eu preciso das dores mais que dos risos.

Para que me possuas em meus vícios,

em rescaldos lentos de paraíso.

Eu preciso das chagas que não se consolam

mas que me consomem, 

combustão dos meus pensamentos livres.

Eu preciso da escuridão, pra me esclarecer,

entre versos e outras bobagens tristes.

Eu preciso das antíteses consagradas

em rodopios de leituras vivas, dolorosas,

aterradoras e apaixonadas.

Pois se na luz me vicio, no meu ócio, silencio,

na ausência das palavras frustradas.


AC