Seduz-me teu encanto nas horas passadas
Tal canto de sereia em alto mar
Tua luz traduz-me prece iluminadaCalor do teu seio-abrigo onde irei me afogar
No jazigo da morte, sem escuridão presente
Tenho a sorte do simples querer bendito
Estourarão faíscas de amor incandescente
Até a última hora do adeus vivido
E em teu peito, onde recolho flores
E súplicas de amor tão eloquentes
Encontrarei a paz que tanto realizo
Pois morrer de amor é partir sem dores
Sem o suplício dos enfermos e doentes
Amar até exaurir, é morte em paraíso.
AC
Aqui está, minha flor, meu presente de Natal.
Dorme dentro do meu peito,
embalado em papel cor de rosa
com enfeites de chocolate amargo.
Como o desejo feito de mel,
nele coloco o meu doce afago.
Recolho o bem, afasto o mal,
adiciono a poesia caprichosa.
E o ofereço em terno apreço.
Como a cor dos seus olhos,
ventre do céu, plácido mar!
desembrulho o presente de amar.
E com um beijo nele em repouso,
pouso-lhe nos braços
o presente delicado,
pássaro com asas de abraços.
Utilize-o nas suas horas densas,
à luz do mais belo luar.
Pois coisa tão delicada de ter
delicadamente há de tratar!
AC
O último dia do ano não existe,
para aquele que não desiste.
Para os bem-aventurados de espírito,
os sadios com suas consciências,
os leves como o vento doido que salta.
Não traz medos, traz saudade feliz.
Traz a maturidade construída com a qual
subitamente você se depara um dia.
De repente, você entende o mecanismo da
vida.
Os muitos passados, seu único presente,
o incerto futuro.
Seus amores frustrados, seus amores
possíveis.
A afobação, deixe para a rotina ensandecida
dos motores turbinados dos carros do
século XXI.
Dentro de si, carregue passividade e
calma.
Tolerância e paciência.
Mas carregue, antes de tudo, alma.
Alma grande, gentil e generosa,
a que abarca em um só abraço todos
os amigos próximos e distantes,
e que não descarta nem mesmo
quem um dia lhe feriu.
Afinal não carregue mágoas, carregue
música alegre e de boa qualidade.
Carregue versos, ditados, trechos
de um bom livro, cenas memoráveis
dos clássicos que você escolheu.
Os belos lugares, as comidas saborosas
e proibidas.
(Deixe-se engordar!)
E na hora da passagem de ano-
mera ilusão ilustrativa do calendário
que precisamos construir
para organizar as coisas -
acenda seus próprios fogos de artifício
e comemore a chegada de mais um dia,
aquele esquecido no canto da calçada,
que você tomará pela mão
e com o qual passeará mais um tanto da
sua vida.
AC
Lá vem o bom velhinho,
com sininhos luminosos a badalar:
Blém, blém, Belém, Belém...
Crianças dormem no mundo inteiro,
cartinhas secretas em meias.
Na fantasia vermelha do Natal,
os floquinhos de neve caem
sem parar, ao norte ou ao sul.
Elfos ajudam a carregar o trenó
puxado por nove renas aladas,
que pressentimos cruzar
o céu na noite do dia 24.
O bom velhinho traz alegria paciente
e sonho de bondade irrestrita;
o mundo terno que gostaríamos que existisse.
Mas o bom velhinho não desiste;
pela noite inteira, acolhe as boas
crianças com seus presentes dourados.
Acha um jeito de entrar,
(magia proibida de ser descoberta!)
As crianças dormem, envoltas em suas cobertas.
Alegres e quietas.
Corações acelerados pela manhã do dia seguinte.
Ah! Que mundo belo que os sonhos
infantis nos remetem!
Na noite do Natal, reina a paz
que os sonhos infantis nos promete!
AC
A vida está aqui, recolhida.
Pétala por pétala, dia após dia,
no verso incerto, precisão inexata.
Sinto o pulsar dos martelos que vibram.
Como é rude o seu ritmo,
tambor sonoro lançado ao vento.
Na face das minhas meninas, o acalanto.
Mães são o amor seguro,
filhos, o amor verdadeiro.
E sinto o amor;
como um doce toque de águas mornas
no fim da tarde.
Contemplo as pedras
que vivem mil anos.
Mil anos me dessem, não iria querer tê-los.
Porque o que é doce, passa.
O gosto doce, o perfume,
o dia em sua trajetória graduada.
A vida se oferece em demasia.
E o pensamento, refúgio da palavra;
E a palavra, pensamento em pronúncia - se anuncia.
A vida é bela? É! Se é!
A vida é rude? É! Se é!
Pedras não falam, se calam.
AC
Tragam-me os santos e as palavras.
O azul liso, absoluto.
As rosas frescas e os segredos abissais.
Tragam-me Carlos; e Cecília.
A menina de olhos capitunianos.
O branco frio dos lençóis virginais.
Tragam-me a moça de pontas.
A sapatilha esgarçada e puída,
flagelo dos vôos descomunais.
Tragam-me a embriaguez e os prazeres.
A nudez bela porque inibida.
Os embargos comportamentais.
E trouxeram-me os santos,
a água marinha,
as pétalas,
a dissimulação,
os músculos e o desejo reprimido,
e tudo o mais que reclamava.
Fiquei com Cecília e as palavras.
AC