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sexta-feira, 26 de junho de 2020

DO ESPÍRITO

      para meu pai

Leio-te, depois de morto
E te encontro na paixão dividida pelas palavras, sons e sílabas
Seres universalmente unidos pelos laços consanguíneos da escrita,
pelo prazer da fluência, do mimo sonoro do português açucarado.
Estamos tão distantes, tanto quanto tantas vezes antes.
Pai que não encontrou filha,
filha que se perdeu de pai
nos caminhos aborrecidos da vida.
(Então, cerca de 50 anos não foram suficientes para te dizer o quanto te admiro,
o quanto te senti em falta,
ainda que compartilhando da doação da tua alma aos Imortais)

Tenho lido e te procurado em teus escritos
Tenho lembrado, entre risos e tristezas, da entoação que davas ao ler para mim
O segredo dos nomes engraçados dos teus personagens, protagonistas de tua alma fustigada
de tão nobres sentimentos e imperfeições humanas

Do tanto que aindo hei de reconhecer, reconheço a mim mesma dentro do nosso sangue,
Palavra dentro da nossa frase,
Livros imaginários a redigir o nosso espírito.

Ana Carolina