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domingo, 30 de agosto de 2015

CAMADAS

Eu sonhei contigo, mas me roubaste 
meu sonho doce.

Teci a manta do desapontamento

Eu que tanto te quis nos mais doce
dos meus sonhos

Mas retiraste o cobertor 
que me faria feliz

Eu quis acarinhar-te, mas não quiseste
meu cuidado

Vesti o refúgio da tristeza

E cobriste de desencanto
uma boa parte da minha existência

Eu lembrei do tempo em que,
pensava, iria me apresentar ao enlevo

Mas o enlevo se desfez
ao não me fazer tua escolhida

E desde muito, então, 
talvez desde sempre, 
recolhi em minh' alma a camada fria,
amarga e sofrida
- de sonhos roubados-
da desilusão.

AC




EXTRAVIO

Eu lamento tanto,
da vida conhecer tão pouco
da verdadeira felicidade.
Porque nasci assim, 
afeita às pequenas dores
em um grito desiludido.
Em um mundo que me aborrece
de tanto não compreendido.
Da fé que não tenho 
nem em deuses ou pessoas.
A tatear tintas belas
a sobrepor borrões da realidade.
E assim criam-se telas
mentirosas da vida que não é perfeita
nem nunca será contrafeita.
Como se precisássemos estar aqui,
nós que nada somos.
Como se fôssemos algo maior,
em nossa inexpressiva escala
no universo.
Eu lamento muito
que do mundo e das pessoas 
conheça mais o avesso,
a futilidade das essências,
a obviedade do nada.
Eu sinto que, no martírio delicado
das sensações que tenho no peito,
na trama sutil que envolve
dores, desejos, devaneios, danações...
Me reste a triste desolação
do tempo perdido, em um mundo 
igualmente extraviado de sentido.

AC 



LACUNA

Tantas vezes me pergunto
de qual amor necessito...
Do teu, do meu, da vida lá fora...?

Tenho braços estendidos
que procuram, desorientados,
pela doce explicação das horas.

E vou cultivando, em introspecções,
o desconforto de nunca encontrar
o endereço verdadeiro que procuro.

Vou retraindo os meus sentidos
até essa ingrata percepção,
no ar que se retém no espaço doído dos pulmões,
na tristeza cálida e quase desejada que se avoluma
no canto dos olhos.

E quando os olhos por fim explodem
em pedacinhos de água morna, salgada...
... eu vejo o mundo lá fora...
sem endereços, sem ruas, sem amor ou
explicações.

AC



A SOLIDÃO DO TEMPO

O tempo ficou velho.
Tu, que te apossas das horas rápidas da infância
e embriaga com a doçura ingênua da mocidade 
que um dia julgamos eterna.

Mas, tu, tempo, também envelheces.
Não é só em nós que levas a mocidade
e traz a desilusão da maturidade,
a percepção dos sofrimentos alheios
que subitamente se tornam tão agudos!
Como que um anteparo para prever 
a solidão amarga da velhice,
aquela que um dia, de uma hora pra outra,
começamos a perceber em nossos pais.

O capítulo dos pais.
Um dia heróis, 
tão ativos e envoltos em suas vidas
como somos agora.
E vemos a fragilidade nos dedos que se enrugam


na surdez que domina

no andar mais delicado

nas palavras que se embaralham na mente cansada
dos anos.

É difícil, tempo, assistir ao outono dos pais.

Mas tu, tempo, também envelheces.
Não é só a nós que também levas, sorrateiramente,
para longe do desfrutar da vida.
Não é só a nós que vais tomando de assalto
em mechas brancas, juntas doloridas,
saudades do passado que se avoluma.

A vida, tempo, sempre parece mais doce no pretérito longínquo.

Mas tu, tempo, também envelheces.
Ao nos enveredar na passagem pela história,
nos curtos, breves e doidos versos 
que vamos escrevendo, 
no dissabor do não entendimento do para quê e porquê...
Tu, tempo, ao tempo que nos leva nessa estrada
também junto caminhas nela...

E também é teu o assombro da vida rápida,
do trem apressado que nos transporta,
destino em destino.
E se carrego comigo um pouco de ti,  
então é certo que, neste mundo,
mais do que todos que já viveram,
tu já morrestes milhares de vezes,
em cada vida que precisa se apossar de ti
somente para depois deixar-te ir embora.

AC 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

ALUAMENTO

Às vezes, as vontades doidas me afligem
e quero sair por aí, conversando com os loucos,
com os que acreditam nas febres dos fins de tarde,
com os que colhem ainda, muitos amarelos,
os cálidos girassois do outono.
Quero telas vazias para poder pintar com cores-íris,
pratos na mesa para degustar com poucos.
Quero cheiro de sândalo nos incensos 
que acalmarão meu olfato rude,
Quero tocar lâminas de seda e tule
para tear cortinas delicadas e esconder
detrás de tais cortinas a nudez festiva
que assombra anciões lúgubres.

Quero incitar pavor!

Quero da vida um pouco da melancolia cronometrada
das horas.
Mas também quero a desmedida alegria 
como a que quando recebo, inusitadamente,
os beijos sorrateiros e sapecados de minhas filhas.
Quero a falta de ar dos corredores de maratona,
intrépidos atrás das linhas de chegada,
costuradas com a precisão do suor e comprometimento.
Ah! e como quero o doce encantamento
dos filmes de fadas, e também a última
e sofrida nota de um canto de fado.
E quero da noite a pura excitação e
e da tarde o inoportuno enfado.

Quero comandar as marés!

Quero a tirania dos homens deuses
a ousadia dos modelos nus 
a valentia dos heróis antigos
a calmaria da onda no final da praia.
Quero testar minha sorte nos jogos de azar
e amansar os ímpetos e as intempéries
que arrasam as vilas, credos, línguas, Fortes.
Às vezes, as vontades doidas me afligem
e quero sair por aí, conversando com os loucos,
com os que acreditam nas febres dos fins de tarde,
com os que colhem ainda, muitos amarelos,
cálidos e gentis girassois do outono.

AC

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

NAVIO FANTASMA

Os navios sem sombras
Me assombram, desgovernados

Com seus espíritos de piratas
em cadavéricos tapa-olhos,
roupas puídas e mal cheirosas,
pernas de pau e ganchos salgados.

Os navios partem sem rumo
irracionais e desnorteados

Cantam as sereias doces canções
chamando as almas dos seus amados
Mas nos navios, não há barris,
licores, vícios ou degenerados.

Os navios vão sem tesouros
Proas a pique no mar dos calados

Sem homens maus de intenções vis
ou ladrões de vidas, ouro e pecados.
Sem prisioneiros em tal sofrimento
que gritos ecoam na rosa-dos-ventos.

Eu tenho medo de tais navios
Assim banidos do que é sagrado
Pois o que não encontra mais um destino
De alguma forma está predestinado
A correr os mares em longa jornada
A cortar os mares em lento desperdício
A trincar marés, grande sacrifício!

O navio fantasma, fado tão insano,
navega na mente, raivoso oceano.

AC




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O QUE É BREVE, O QUE SE MANTÉM

O mundo, meus amores, não gira por mim,
nem pelas luzes do dia
pelas manhãs de sol
pelas noites arredias
pelas doces cavalgadas
pelo aroma das lavandas
pelas dores apaixonadas
pelas casas vazias
pelas almas desencarnadas
pelos ódios aos gentios
pelas iras horas e haras
pelos instintos sombrios
pelas peles perfumadas
pelas sombras pêlos cios 
desvarios, desvairadas
pelos ócios que saciam
a rotina tão amarga...

O mundo gira por Elisa

O mundo gira por Clara.

AC




A TELA II

Às vezes, quanto paro diante de ti
(tela descortinada)
mil inquietudes sobem à minh'alma;
- A tela, sem dores, sem queixas,
sem filhas, flores ou falas.
Até quando, eu me pergunto,
isso verterá dentro de mim?
Essa precipitação,
aflição boa e verdadeira,
tormenta sem hora marcada!
Não sei...
E não sabendo de nada
muitas vezes assim procedo:
Paro diante de ti,
sempre atenta, tão calada
e pergunto-me porque aqui vim:
- Oh tela, sem dores, sem mágoas...
Descobre o que tenho no grito
o nó no peito aflito
ou um mera alegria rasgada
de simplesmente estar aqui!
E me sobe um amor assim louco
Um abuso, uma doença, um apreço
pela coisa ainda não falada.
Aqui submeto o meu vício
e aqui me reparo no ofício
de preencher-te, tela amada!

AC