Eu te observo.
Calado, curioso, confuso,
perscruto os teus pensamentos,
resposta aos meus sentimentos.
Não sei se sei o que quero,
o que devo, posso, o que peço.
Eu te fantasio.
Reviro tua alma ao avesso
tento encontrar um enigma,
mistério que eu mesmo alimento.
Não sei o que tenho,
o que parece, se esconde, tateio.
Tento adivinhar.
Desvendar significados,
ambição do meu espírito inquieto
a procurar um dolo, um culpado.
Não sei bem o que me move,
o que remove, reflito, rumino.
Eu tento ver pelos teus olhos,
te cerco com minhas pesquisas,
resgato supostos antolhos.
Vivo a vida ou o que é ilusório?
(Mas...
Não tentes revelar devaneios
nem te mortifiques com tantos apelos.
Deixas calar o alheio.
Que são sonhos senão
os últimos refúgios da alma?
Agentes das transgressões
mais libertárias.
Os minutos mais íntimos
da tua morte.
A audácia pessoal, a última fronteira,
o vício mais solitário...)
AC
Os navios virão,
as naus portuguesas,
carregando fontes cruas,
límpidas,
de desejos.
Eu guardo no meu peito,
delicadamente,
a isca que te levará
ao destino dentro de mim.
As gaivotas, nem boas, nem más,
cantarão a glória do amor
espraiado na areia.
Apenas contemplarão
em silêncio, o silêncio
entretido entre mim e ti,
sustentado no minuto
mudo de pernas abastecidas,
ainda rubras do amor realizado.
AC
No alto do monte, tanta estrelinha encantada,
estou cá, estou lá.
Braço esticado ao longe, ponta dos pés,
mas elas fogem.
Piscam piscam sem parar, convidam
para a brincadeira:
A dança das celestiais cadeiras!
No troca-troca de lugar eu
irei parar lá em cima,
sentadinha na pele roxazulada do céu.
Os pequenos faróis me gritam:
Vem brincar! Vem brincar!
Já chego lá! Já chego lá, respondo!
E quase transpondo a minha lepidez,
ouço a voz da mamãe gritando:
- Filha, volte já, volte cá!
Pois em dia de noite tão escura o céu mais parece doente!
E de repente olho o céu
e me acendem centelhas!
-É verdade, mamãe!, eu penso,
Que catapora de estrelas!
AC