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sábado, 28 de julho de 2012

SALTO




Padeci enferma, com a febre da agonia.
Com os amores loucos que como espadas
traspassam a vida.
Vivi mais que os amores, me queimei em várias chamas;
em algumas saí mais que ilesa.
Não me aquietei amedrontada diante dos tufões
e não enterrei meus pés no cimento.
Do contrário, abri as asas com as quais não nasci
e voei, determinada, a vários destinos.
Os ventos azuis me levaram, os ventos róseos
me trouxeram de volta.
Fui ao fundo e fui à cima.
Experimentei os vícios, os artefatos, as artimanhas.
Fui boa e má ao mesmo tempo.
Nunca quis colher gratidões, mas entusiasmos!
Neguei-me a ir pelo caminho mais conhecido,
tomei os atalhos que nem sempre foram
os mais fáceis.
Porque nesta vida tola, pequena e rápida,
não quis ser tola nem pequena.
Mas me permiti ser boba, muitas vezes
pueril e infantil.
Usei as palavras; domei meus instintos;
confiei na minha sorte.
As palavras sempre me fluíram como água
na cascata das minhas emoções,
levando-me rio abaixo para o meu próprio autoconhecimento.
Fui longe demais e perto demais.
Suportei as dores, chorei muito.
Ri mais ainda, e melhor, ri por último.
Conheci pessoas belas, mas tão belas,
que também chorei por elas.
Chorei também pelas que queria ter conhecido,
mas o tempo, este vilão,
nos fez nascer em épocas trocadas.
(Desencontros inaceitáveis!)
Tive um peito maior que o que poderia
abarcar tantas sensações.
Deparei-me com o medo insensato
e com a alegria mais pura.
Expandi-me, tantas vezes, imenso big bang
do meu próprio universo.
Assombrei-me com as coisas como elas são.
Não julguei tanto, só um pouquinho.
Ouvi e falei em mesma proporção.
Esqueci algumas vezes, em outras simplesmente fingi,
a ignorância optativa faz parte do caminho.
E quem  sabe....
Sobrevivi...
AC


quarta-feira, 25 de julho de 2012

POEMA



Há um encanto
Há um presságio
Há tanto amor


Tanto que quero
que nem sei porque quero
o que tanto quero
com tanto fervor


Do jardim, colhi as rosas
Do céu, colhi auroras,
Do descanso, os mais belos sonhos
nos quadros risonhos
de Marc Chagall


Da tua boca, colhi minha sede
Em teu colo, há meus perfumes
Em teus olhos - olhos de gato,
dois vagalumes
tão abstratos


Há uma ternura
Há um adágio
Há uma flor


Tanto que espero
que nem sei que espero
o que tanto espero
em teu esplendor!


AC

























FÉ VAZIA

Eu amo, tu toleras,
ele odeia.
Nós veneramos, vós idolatrais,
eles mentem.
Vocês evocam, vários apelam,
alguns comemoram.
Ninguém silencia, um corrompe,
o outro acata.
Alguém aponta, aquele afronta,
aquela mata.
Este suplicia, estes comentam,
esta pressente.
Esse fofoca, essa almeija,
ambos paparicam.
Um morre, dois destroem,
três abdicam.
Dez rezam, cem caluniam.
Nenhum compreende.
Todos aceitam.
Deus sentencia.


AC

terça-feira, 24 de julho de 2012

O SIRI


Eu sou um siri
só ando de lado.

Eu corro de tudo
e moro entalado.

Se vem a maré
eu corro abafado.

Se vai a maré
vou pro meu buraco.
 
Eu sou um siri
só ando de lado.

Não gosto de peixe
não gosto do homem
não gosto do sol
nem gosto do sal.
 
Mas vivo salgado.

Eu sou um siri
meio estabanado.

Se me vê aqui
já fui pro outro lado.

Não gosto da chuva
nem de temporal
não gosto do vento
nem gosto de sal.
 
Mas vivo salgado.

Eu moro na areia,
embaixo, atolado.

Eu sou um siri
só ando de lado.

E vejo de lado
e como de lado
e corro de lado
todo amalucado.

Mas se sou assim
é porque sou esperto
sou muito pequeno
e me querem por perto
para me pegar
e até me comer!

Por isso aprendi
não só sou siri,
sou gato escaldado!



AC

TODOS SE FORAM


Quisera ter santos que me ouvissem
as súplicas sagradas do amor.
Mas os santos dormem,
na preguiça glorificada daqueles
que nada mais têm a provar.
Já alcançaram a benção suprema.

Quisera, então, ter anjos que protegessem
as aflições e a anestesia que a paixão provoca.
Mas os anjos não querem decair,
do alto de suas pacíficas situações celestiais.
Já compartilham da graça do santo pai.

Quisera, talvez, que as superstições fizessem efeito
quando enlaço um pedaço do seu jeito ao meu jeito.
Mas elas foram embora,
intimidadas com as comprovações científicas
da matéria e antimatéria.

Quisera materializar os sonhos.
Mas sonhos são somente sonhos,
histórias confusas no entorno dos neurônios,
filmes que assistimos e não palpamos.

Então, a quem devo suplicar,
pedir pelo amor belo e eterno?

AC







DESENHINHO

                         (para Elisa)

O  sol tem vários bracinhos
E neste branco espaço despido,
tem um lindo castelo colorido
e uma borboleta com antenas gigantes
e olhinhos que brilham floridos.
Tem um espetinho, que é um boneco.
Tem uma cruzinha, que é a irmã
que amo em meu peito arfante.
E a nuvem do meu lindo céu
não é de talco, nem de algodão.
É para deixar meu céu azulado.
Bonito, viçoso, estampado.
Não há linha neste chão
Mas há pontuda graminha
e as maçãs não envenadas por bruxas
caem na relva sequinha.
E quando mesmo a grama não há,
nem linha nem limite nem chão
O sol, pendurado no ceú
E a casinha, pendurada no nada
E o boneco e a irmã tão amada
Ficam no fio da minha imaginação.
Assim guardo meus lápis,
satisfeita com minha produção
Pois em um papel branco sem vida
não fiz desenhos pueris
não fiz riscos sem noção.
Rabisquei meus versos infantis!
A casinha, a borboleta, o não chão!


AC

 

MARIONETE

               
Minha alma tem a sede do infinito
onde repousam as artimanhas do destino
Este ser único, indiferente e híbrido
Repleto de coragem e de bondade
ou da atroz vontade, grosseira e desumana.

Deste destino, espero qualquer façanha
Eu não o escrevo, e sou então predestinada
a ter minha alma cheia de inquietude
Pois me jogam dados desordeiros ou tão vívidos
em resultados plenos ou no contrafluxo do nada.

Nesta inesgotável sede do universo
O que se expande, o que reflui, o que extasia
Aceito as regras pouco justas que se impõem
Mas é do jogo de quem tem sede em demasia
viver sombra e luz, o lado quente e o submerso.

AC

segunda-feira, 16 de julho de 2012

150





Quando bem velha for,
lá pelos meus 150 anos de idade,
meus olhos, opacos, ainda poderão brilhar.
Enxergarei no escuro, ouvirei no mundo do silêncio
e anteciparei os fatos, escaldada das ilusões
e da realidade, no alto da pirâmide que subi.
Terei mil sonhos, com a licença de ser louca.
Somente os bem velhos e os loucos podem
sê-los e passar indiferentes!
Minhas lembranças serão muito vívidas,
do ontem e anteontem que vivi.
E meus sonhos serão muito coloridos,
pois  eles persistem em viva guache dentro da mente.
Terei ossos de cristal fino, frânces e bem cuidado.
Terei pintas estelares e manchinhas solares
contando a geografia do meu corpo.
Mãos de pele tão delgada quanto o embrião que
já fora outrora.
Cabelos quase azuis, mas terão o último corte da moda.
Não serei cafona.
Continuarei poeta.
Minha família, já tão numerosa que não saberei contar,
me reservará o canto do lado da mesa.
Tirarão fotos, colocando-me no centro, entre gentes,
associados, gatos e cachorros.
Eu terei para todos o sorriso delicado de quem
conversa com flores, sente a carícia de fantasmas
e não pretende mais entender muito o mundo.
Não precisarei pagar contas e
assistirei ainda a muitos filmes, aqueles
que desbravam a antropologia selvagem que nos cerca.
Ainda me espantará a bondade e a maldade.
Continuarei xingando os otários.
Detestando os burros e sobretudo os pobres de espírito.
De tudo que perderei na minha identidade,
algo corroída entre rugas e esquecimentos,
acho que persistirei sem sentir medo da morte.
A esta altura, talvez a ciência já tenha me provado
a existência de Deus, mas nunca a do inferno.
Continuarei fã dos bósons de Higgs.
Talvez eles também já tenham comprovado a
interface dos universos paralelos, mas viajar
no tempo será ainda algo para meus trisnetos.
Bem, aos 150 anos não serei mais tão aflita- acho.
Não me tornarei hipocondríaca
conquanto todas as ites e oses e “Mals” me persigam,
mas minhas pílulas douradas
e minha genética privilegiada me manterão
pelo menos 20 anos mais jovem.
Sim, quero ser uma velhinha delicada.
E pretendo sinceramente não ser chata e sobretudo, acima de tudo, não usar fraldas.







AC