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terça-feira, 30 de agosto de 2011

ESPREITA

Às vezes, tantas vezes, me perco no tempo,
esperando notícias.
Ou seriam respostas?
O tempo é fiel
quando esperamos por algo.
Ele não nos abandona.
Mas as respostas, ah....
estas tardam, anoitecem,
amanhecem, declinam mais uma vez com o dia
e se embriagam no sono das noites.
Esquecem de nós.
Viajam nos seus loucos sonhos,
na insensatez dos sentidos,
na cauda de cometas imaginários.
Respostam são como marés no seu influxo,
na sua inversão.
Podem vir rápidas, mas como demoram
para quem as esperam!
E o tempo fica ali contando seus minutos,
seus milésimos de milésimos
de segundos.
Cronometragem irritante.
Espera impiedosa.
Respostas fugidias.

AC

domingo, 28 de agosto de 2011

CALEIDOSCÓPIO

Se olhasse dentro de ti,
seria colorida minha visão?
Quantos pedacinhos de mosaicos
pequenos e belos,
cristais de refrações de luz,
orgia de cores temperamentais
eu veria?
Giro o pequeno tubo do teu ser e... não estás mais lá!
Já me partilhas outra imagem,
outra mandala pintada e repartida
nos mil sóis que, desejo tanto, me ofereças.
Oferta-me tua luz! É so o que te peço.
A vida, esta já nos dá mil tons de cinza!


AC

sábado, 27 de agosto de 2011

A FLORESTA

             ( para Clara)

A tarde já cai na floresta.
Para suas tocas, jabutis se recolhem,
lindas borboletas ainda percorrem
o silêncio e o sussurro das flores que escolhem.

Cigarras preparam a sua sinfonia,
orquestra do sol, que desce insano,
e atrás do horizonte, distante e plano,
cai o manto rubro do que já é noite e ainda é dia.

Neste meio termo de tempo, nem noite, nem dia,
uma estranha quentura toma a floresta,
aranhas espicham suas teias macias,
e os últimos raios se aninham em suas frestas.

A coruja acorda, preguiçosa e assustada,
mas a noite contudo ainda não se inicia,
pois é final de tarde, e uma cotovia,
ainda canta bem alto, cheia de energia.

Mas rápida vem a noite que negra se espraia,
Pois o tempo não espera, não pára ou aguarda,
e da doce quentura torna-se a floresta fria,
e outras criaturas saem em romaria.


Agora a coruja enche-se de coragem
e se embrenha na mata atrás de sua fome.
Morcegos invadem o céu da paisagem,
e pequenos roedores desavisados se expõem.

Na lagoa girinos nas folhas se escondem,
nas copas das árvores, em folhas e cipós,
taturanas e lagartas medrosas se encolhem,
e tudo é escuro, preto, cal e pó.

No alto da colina ouve-se um lobo,
uivando seu grito de dor ou abandono,
E olhos amarelos surgem em toda parte,
tomando a floresta sem medo ou alarde. 

De repente uma horda de vagalumes fluoresce
e faz-se súbito brilho no seio da mata,
E a noite avança adentro, e até a lua, bem alta,
anseia para ver o sol mais uma vez, que a aquece.

E  ele vem subindo, devagar e certeiro,
no ritmo das horas, sossegado e avante,
e a floresta se acende em um novo dia.
E um novo ciclo de vida se reinicia.  

AC 


VIVER

Crer no imponderável.
Aceitar o inaceitável.
Emudecer diante dos atos.
Calar-se diante dos fatos.
Chorar sem nada a fazer.
Resignar-se ao impossível.
Impedir a tristeza e loucura.
Ter forças pra reagir.
Ter coragem para prosseguir.
Ter atitude diante dos medos.
Ter energia para os desapegos.
Lamentar o que não é entendido.
Prosseguir na rotina da vida.
Seguir o tempo em sua rota traçada.
Aceitar do destino os flagelos.
Olhar mesmo sem querer ver.
Abafar o sofrimento da alma.
Amputar a dor que corrói.

Deus exige muito de nós.

AC

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O MONSTRO

Há um monstro vistoso, de vestes vermelhas,
orelhas pontudas, andar sobranceiro,
com pele felpuda e finos artelhos.
De pouca audição porém faro aguçado,
de tortos olhares, tez dura e fria,
não ri, não sorri, é sempre calado.
De altura viril mas de porte acanhado,
percorre seu bosque, em busca de algo,
com fino olfato busca odor almiscarado.
Carrega na túnica pequenos tesouros,
um osso, um âmbar e pequeno cutelo,
pedrinhas com as quais caça incautos besouros.
Suas unhas tão fortes, grotescas as garras,
são grandes e imundas, se agarram às árvores;
se arrastam na lama e tendas amarram.
Os pés são duas patas, de passos compassos,
e o bosque é seu reino perdido e errante,
onde ele assusta mas também se sente assustado.
Os uivos e açoites de outros reinos distantes
acendem seus olhos, labaredas amarelas,
ele apressa o trotar, para paragens avantes.
De dia se esconde, não se sabe onde,
mas à noite, quando sai, é  dono do seu reinado:
o bosque rendido às suas doces vontades.
A noite é seu guia em sua sina obtusa,
a lua o apavora mas também o fascina,
ele é medo e delicadeza em uma só criatura,
animal, homem, lobo, tristeza e amargura.

AC

CECÍLIA

        homenagem a Cecília Meireles

Vejo-te bebê,
a dormir em brancos lençóis de linho.
E menina, com tuas bonecas costuradas,
em longos cachos em desalinho.
Vejo-te mocinha,
invadida por sentimentos líricos.
Vão os sentimentos apoderar-se de ti;
tornar-te quem tú és.
E nada mais será como antes.
E tudo então será para sempre.
Serás para sempre densa,
preciosista,
tão nua em tuas emoções,
tão intensa.
Revelarás teu caráter gentil,
a limpidez dos teus textos,
tuas palavras disciplinadas
em versos febris de ouro.
Cecília, és a própria poesia!
Onisciente em teu sentido
a verter frases cristalinas.
Deste-me até, veja só! um lindo colar de coral!
(E com ele corro minhas colinas)
Cecília, em meu altar secreto,
estás lá, Santa Cecília!

AC

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

RUA DO AMOR

Procuro o amor.
Não sei onde encontrá-lo.
Mas a dor, sei onde mora.

Sei onde mora o vazio.
O silêncio e as coisas inatingíveis.
Mas não quero da dor um penar gentil.

Não quero tampouco
as trufas açucaradas.

Não quero as sedas
macias e delicadas.

Não quero a luz do sol
e as alvoradas.

Não quero o alecrim, a canela,
olfato das coisas inebriadas.
 
Não quero ilusões.
Procuro o amor simples e puro
e talvez derradeiro do mundo.
Não sei onde reside,
mas acredito que está em algum lugar,
dentro de mim, fora de mim,
forte como as manhãs de tempestade,
fresco como o orvalho das geadas,
cálido como o abraço dos pais.

O amor.
Alguém pode me dar seu endereço?

AC

PARÊNTESIS

Quando abro o pensamento,
palavras escapam de mim
e se atiram no abismo das frases.

As linhas enrolam-se em textos,
em contextos enroscam-se;
sem pretextos, deslocam-se alucinadas.

Já não tenho o poder de contê-las
em sua cadência agitada,
na própria rota traçada.

( Há traços; e pontos; e vírgulas,
e tantas exclamações!)

As palavras são então
embrulhos de presentes
que ao se desnudarem revelam-se belas ou trágicas.

Diante de sua força, sou tão impotente!
Oh misterioso mundo das palavras mágicas!

AC

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PALAVRA

A palavra do poeta indignou-se e correu.
Fugiu do seu destino vocábulo,
caiu no chão, se escondeu.

Ora, palavra inquieta,
incerta do seu próprio destino,
não quer ser nome, sobrenome,
vacila em seu desatino.

Vaga em frases incertas,
procurando o seu encontrar,
não aceita figuração imposta,
não quer ser dor, amor nem amar.

O poeta a procura, insano,
girando a cabeça no ar,
onde foi parar, a ingrata,
pois dele já que se safar.

Deliciosa palavra,
não está no tapete ou no chão,
escondeu-se subjetivamente,
na entrelinha do vão.

Adjetivo soberbo,
desobediente, descrente e altivo,
emaranhado de letras,
será substância, advérbio,
ou um simples substantivo?
 
E assim ela deixou o poeta,
no amargor da sua solidão
fugiu para sempre e para onde
fogem as palavras inquietas.
 
E dela não mais se ouviu falar,
pois nem escrita foi ou será;
e a frase, vazia no ar,
quintessência da palavra,
não existiu pro poeta,
tornando-se essência abstrata.
Poesia com prosa inconcreta.
 
AC 

CREMAÇÃO

Quando eu partir
não me velem.
Não me olhem com olhos piedosos.
Serei feia quando morrer.
Pois a morte é muito sem graça.
Se pedisse que dessem uma festa,
eu sei- seria lugar comum.
Assim, não façam nada.
Nem mesmo chamem os amigos,
avisem-nos por telefone.
Somente me levem pro abrigo
onde minha carne será queimada
e talvez com ela a minha alma.

AC


DESOLAÇÃO

                    ( texto)

Não estou viva nem morta.
Vagueio na suspensão do ar, jogada ao acaso do vácuo, no limite da finitude das coisas e onde não existe mais tempo.
O tempo parou, o relógio está quebrado há dias naquela triste e derradeira hora.
O chão que piso tem agora um tato diferente. Os cheiros não me atraem e meu sorriso congelou-se em um semicerrar de dentes.
Não há calor dentro de mim, talvez um pouco de frio. Como se meus órgãos tivessem deixado de funcionar, o coração parado de bater.
Minhas pernas sustentam-se firmes e vigorosas, só que não sabem para onde ir. Não há luz que guie meus olhos ou tambores vibrantes tocando alegria em meus ouvidos.
Sou um misto de tristeza, ocaso, complacência e aceitação. Minha mente não questiona mais os acontecimentos, somente os vêem de fora, como se deles nem participasse.
Os fatos passam ao largo e ao longe  mas ainda não sei como nem porque, me atingem e então eu sinto a dor.
Mais um ciclo de vida se fecha, encerrado com eles sonhos alegrias, esperanças e emoções antigas. Fica  agora o vazio, o meio estado entre o viver e o não viver, entre o querer e o não querer. É o nada, afinal.

AC


MOINHOS

Meus moinhos empurram meus ventos da solidão.
Ventos frios, vazios, abandonados.
Tão triste ter tristes ventos!
Contratempos de solidão, em desalentos
amedrontados.
Meus moinhos afastam minhas ilusões
e não as recriam, ou nem as sonham,
como um Quixotes mal amado,
em cujo coração desfigurado
recordações irreais povoam.
Meus moinhos desfazem os abismos
de medo, infortúnio ou temor;
a dor que em minha face estampa as
rugas inexpressivas e sem cor.
Meus moinhos são meus missionários,
mensageiros dos meus clamores;
esvaziam minha sede do nada
esgotam meus receios aflitos,
boicotam meus anseios ordinários!


AC

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A ESCOLHA DE SOFIA


Dos homens não esperai mais que a loucura.
Os enterros sem lápides, em terras coletivas,
na vala da impiedade, na vala da miséria,
na Máquina gigante e imperturbável da morte.

A produzir teus mortos; em escalas e metas
de domínio a alcançar; apressada e odiosa;
intolerante e inquieta.

Onde estão teus olhos, soldado
para a criança que matas facilmente?
Olhai nos olhos da criança
e percebei tua falta indecente.

Mas não percebes!
(E o mundo também não percebe
as dores alheias, desde que distantes
do teu sítio).

A engrenagem do ódio põe a máquina a girar.
Gira impiedosa com tua insana inclemência,
na loucura dos doentes, dos aflitos,
indiferentes à própria demência.

Onde estão tuas dores, soldado,
quando desossa tua própria humanidade?
O que te perturba, a indecência, a criança
ou tua imoralidade?

Mas nada sentes!
(E também não ouvimos os tiros e os gritos
do inocente).

Quando a Máquina para e descortina então
o teu penar mais reles e profundo,
teu desperdício e barbárie em valas de comunhão,
nos assustamos! É que sabemos, no fundo,
que nas valas sem compaixão, jaz a vergonha do próprio mundo!

AC

A PRINCESA

              (para Clara)

Num belo reino distante,
morava linda criatura.
De olhos abertos e espertos,
andava sempre à procura.

Achava por todas as partes
suas doces, singelas loucuras.
Fantasias de mel, luz e arte,
histórias lendárias e puras.

No alto da pedra encantada,
lá estava o eterno menino.
A voar por planícies douradas,
escoltado por sua Sininho.

No fundo do frio oceano,
nadava uma ruiva sereia.
Tristeza nos olhos levava,
cantava seu amor pelo humano.

Dentro de ardilosa baleia,
Lutam pai e Pinóquio- menino,
Alertado por sua consciência ( o grilo),
ele irá mudar seu destino.

Lá na torre, não mais se via,
a princesa dos olhos de mel.
Chorava no chão com suas tranças,
arrancadas, pobre Rapunzel.

Na casa do fim da floresta ( alegria!)
chocolates, magia e manjar.
Mas muito cuidado, meninos,
Pois nela mora a velha má.

A vida é feita de sonhos,
desdizer isto ninguém ousará.
Devaneios e lindos encantos,
Sol e terra, luz, lua, luar.

E assim, girando o mundo,
de belos sonhos infantis,
nutria-se a linda menina,
amada, amável, feliz.

E neste compasso encantado,
seu mundo vivia a girar.
Gira, gira, gira mundo.
Mundo gira, sem parar.

AC

06 ANOS


                   (para Clara)


Em que instante exato você cresceu, minha pequena?
É com susto nos olhos e aflição na alma que me pergunto isso.
Em que momento você deixou de ser aquele ser dependente,
frágil e complexo que um dia tomei nas mãos.

Como eu tinha medo de te deixar cair; de não saber te segurar;
Mas nunca, nunca, tive medo de tanto te amar.
E foi com você, minha princesa, que descobri o prazer de viver.
E o amor, bola de neve, avalanche de sentimentos, então só fez crescer.
 
Como aprendi e aprendo tanto com você, minha doçura.
No seu comportamento adequado e sensato.
Com a lucidez dos seus atos,
com o ordenamento dos seus sentimentos.

Você já nasceu moça, mas isto não deteve seu mundo de faz de conta,
isto não te impediu ou te impede de ser criança,
pois você congrega graça a atitude,
amadurecimento e alegria, pequena professora da infância.

Sua sensibilidade e argúcia me assustam,
e eu reluto em aceitá-la tão "grande", proibindo-a de crescer.
Embora saibamos que o pássaro voa para longe,
e desejemos que ele vá livre e encontre o seu querer.

Então, se é assim que as coisas acontecem, inevitavelmente,
eu desejo pra você, meu amor, o futuro mais pleno de alegria,
que de luz e clareza sejam feitos todos os seu dias,
ontem, hoje, para sempre, eternamente.

AC