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sábado, 30 de junho de 2012

AS MARIPOSAS





Quando surge a mariposa
Eis a deusa: nua e rosa.
Eis a lua: preciosa.
Bate as asas, melindrosa.
Voa em um tempo tão ligeiro
que aquela que hoje vejo
não é mais a tal formosa.
Mas no canteiro onde a menina
borboleteia suas pétalas porosas
vivem muitas outras faceiras,
a bater suas asas ruidosas.
 

AC




MINHA MÃE

Há algo de divino em você,
com todas as suas qualidades
e mesmo em suas imperfeições.
Reduto inquestionável das minhas horas de tristeza,
colo acolhedor que me protege e me norteia,
útero para o qual volto sempre que necessito
e que nunca me negou o doce mel de carícias.
Virtudes de uma verdade inquestionável;
o amor, às vezes maior do que posso abarcar,
a proteção louca e voraz das tigresas,
aquela que fez em mim caráter e correção.
Não posso nem lhe agradecer o que você me deu
pois sei como mãe que as mães tem essa dedicação
sobrehumana; agradecer seria minimizar
a candura maior e o destino sacerdotal de ser mãe.
Gostaria de ser a filha que você merece,
mas saiba que há um amor quente
e intensamente abrasador dentro do meu peito,
uma sólida admiração por você ser essa construtora de afetividades.
Com você, aprendi a ser uma mãe verdadeira.
Por favor, nunca, nunca me deixe,
pois mães são imortais, e você
é uma das razões da minha existência.
É simples assim: eu te amo!

Da sua filha
AC




quarta-feira, 27 de junho de 2012

FACIES


Vejo tua fachada
talhada em máscara de grandeza.
Quantos disfarces abrigam um semblante?
Nas horas de dor, pões a máscara dissimulada
da mentirosa alegria.
Não queres revelar tua agonia!
Nas horas da verdadeira felicidade
teu sorriso encantadoramente se abre;
desabrochas tuas rugas em finas ranhuras
que, como que se feitas de areia,
sucumbem a pés dançarinos que as apagam.
Há horas em que estás pálido...
Onde foi parar o sangue da vida,
esvaziado sob a pressão do momento?
Há horas em que perdido ficas
a sonhar acordado, astronauto no espaço
dos seus íntimos devaneios.
Nos momentos de fúria, seguras retesamente
esta máscara de um tênue civilidade,
algo entre uma explosiva combinação
de contenção e raiva, represa prestes
a se partir.
Mas é nas horas em que seu todo parte, 
que mais temo o que há não fora,
mas dentro de ti:
Nas horas em que não sei onde estás,
quando foges para onde meu coração não o alcança,
e a aparência fria da quase-morte me assusta
e à máscara do desespero me lança!


AC



terça-feira, 26 de junho de 2012

SOMOS TRÊS




Tenho nelas o meu eu refletido
Um pouco de doçura,
uma vivacidade,
um tanto de loucas risadas.

E nelas me espelho
Minha feminilidade,
minhas firmes mãos tão finas,
minha carícia e beijo.


Pois no encontro de gêneros
Não há casualidade,
não há jardins efêmeros,
e sim o reflexo de espelhos.

É na ternura dos cuidados
Que tanto as reconheço,
A mulher que há nas duas
é aquela que há em mim mesma.

(Há algo de flor em ser mulher)


AC

SONETO DAS ROSAS VERMELHAS



No jardim de rosas de pura sutileza
Há uma doce pureza que exala ao olfato
E as finas sensações ao doloroso tato
Protege-as os espinhos da própria natureza
 

Nas suas faces ruivas, pétalas de sangue
Notam-se as finas veias do sumo que alimenta
Gloriosamente, a teia que sustenta
Este desabrochar que nada tem de estanque


Tão cheias de volúpia nas inconfessáveis horas
A rosa tem em si o símbolo da paixão
Deleite abrasador que em si acolhe


E o sentimento jorra de sofreguidão
Delírio intenso ornado em bela flora
Presságios do amor que no jardim se colhe!

AC

FRÍVOLAS



Era uma vez um passarinho
Era uma vez um passaredo
Era uma vez um passarão
E passaram! 

Era uma vez uma esperança
Era uma vez um esperanto
Era uma vez a espera
Tão esperada!

Era uma vez as cores

Era uma vez colírios
Era uma vez as coloridas
Assim coradas!
 

Era uma vez uma poesia
Que na sua franca tolice
Não queria dizer nada!



AC






quarta-feira, 20 de junho de 2012

AS DUAS


















Cecília:
Tenho em uma, a beleza congelada;
O coração a remar em barcos de sutil destino.
O destino das águas, das preces e dos louvores.
A vida centrada e as letras que se alinham
na poesia como se delas já soubessem a forma.
Perfeitas! Tão belas e aquietadas!
 

Florbela:
Tenho em outra, a beleza enigmática;
O coração naufragado no barco que se destroçou um dia.
O barco lamuriante, de sôfregas paixões ardidas.
A vida em um equilíbrio instável e as letras
embaralhadas dentre sentimentos e agitações.
Perfeitas! Tão belas e atormentadas!


Como escolher, entre o doce lírio ou a rubra rosa
ensanguentada?


Não temas! não há escolhas; pois nas possibilidades infindas das duas,
Na divergência dos seus destinos poetizados,
O que as afasta é a mesma fatalidade que as une:
O sublime alcance das suas necessárias liberdades!
 

AC

terça-feira, 19 de junho de 2012

A COLECIONADORA




Coleciono objetos em um quarto:
orquídeas, esmeraldas e bela seda.
Guardo chaves de locais inexistentes
sabe-se lá o que um dia abrirão;
segredos escusos guardados no porão da mente!
Repousam taças de vinhos envenenados
e pedaços da arca de Noé sem animais ou valentes.
Cultivo papoulas proibidas
e passeiam gatos narcisistas
entre as joias de outrora, de um passado renitente.
Dentro do quarto, ora tão amplo, ora sombrio
estão, meu amor, teus olhos azuis (de um azul distante).
E à porta avante, retêm-se o calor e o frio.
Alço as palavras em presilhas suspensas
e ficam no ar, a balançar, assim propensas.
Sementes de girassol que nunca plantarei,
sonhos tão vívidos que em filmes registrei,
de tudo um pouco assim eu coleciono.
Somente no quarto não consegui guardar
uma preciosidade de valor inigualável
que nos dá tanta avidez e tanto alento.
Dentro do quarto, não tenho como parar o tempo.

 AC


segunda-feira, 18 de junho de 2012

FLOR BELLA

(Em homenagem à poeta Florbela Espanca)

Ai de mim que por tudo e tanto amo
Em todos e naqueles que ainda não encontrei
Nos dias de sóis azuis e doce sereno
Meu coração dispara em furacão e tormento.  

Mas tu és, ó escolhido
Aquele por quem mais sofro, de tanto amar
Amo-te tanto corpo boca e mente
Que me recuso o ar, pois te respirarei


E sorverei teu calor dentro do meu corpo
Lançando-me ao ar em tua conquista
Como a gazela que salta, tão alto a vista
Que não mais se avista o salto que um dia dei


Pois me abri de paixão, pernas e braços
E em teu encalço, explosões estelares,
loucos em hospícios, também me internei;
Bebi do teu amor, e nunca me curei.


Esta cura, tão profana e desejada
é a procura insana, por onde minha vida salta
Aos abismos cósmicos da paixão retida
Que uma vez explodida, serei tudo e nada!

 
 AC
















VÍCIO




Por onde andas, inconsciente perdido,
Preso e esquivo de suas tentações narcisitas,
Da tua vontade de se deixar ver, tão escondido
Nas linhas frouxas reprimidas, retesamente escritas.
Para onde vão as ideias, no reduto aconchegado
dos sonhos? na angústia represada do que nada,
claramente, representam?
Ah!
Eu prefiro as palavras assim despejadas,
Bem tanto ou tão pouco pensadas
Na clareza dos conflitos!
Nestas passagens neuronais,
Teias indecifráveis vividas,
Escrevo meu inconsciente perdido
Resgato este elo esquecido
Na sã e louca consciência que, afinal,
não escrevo palavras,
Escrevo preces, prantos, vida!



AC

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