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terça-feira, 29 de novembro de 2011

SEGUNDO DE INTENÇÃO

Tenho sido breve nestes relatos,
breves, mas solidários, relatos
nem sempre leves, da vida.
Gosto de ter os retratos
das estações que passam pois
são estes retratos que denunciam:
como tudo é breve na nossa história e
portanto tudo deve ter um relato.
Pois isto é fato: porta-retratos
só contam histórias leves
de fáceis sorrisos, abraços encontros
e os risos frouxos dos nossos filhos.
Gosto das molduras novas ou envelhecidas
que encaixilham vidas nos segundos
breves, tão eternizados,
dos fatos relatados
das nossas breves vidas.
Gosto da suspensão
divina e resoluta em que
emolduramos os voos solitários
ou mesmo solidários das nossas
 

eternas


breves


vidas.



(Que a vida pode conhecer de maior candura
do que estes laços leves, os
longos abraços e os maiores passos
breves ou eternos, que vivemos ternamente
a recontar).
 

AC

FIM DE UM ANO

Finda novembro.
É tempo de iniciarmos as despedidas.

O que foi, talvez pudesse ter sido diferente.
Mas o que foi já era, é agora ausente sem presente.

O que eu gostaria, terá sempre chance de recomeçar.
Pois tudo se reinicia;  voo incessante nunca completo
nesta louca ciclotimia.

O que nunca deveria ter ocorrido,
farei de conta que não ocorreu.
Quero longe de mim tudo que em mim morreu.

O que poderia ter sido, que retorne ao desejo de se refazer.
Alegrias, distrações, loucuras sãs,
ao que de leve a vida tem a oferecer.

O que não aconteceu, dou ao destino
ou ao acaso, no tempo não quero o que
não se reteve ou o que retrocedeu.

Por fim, este fim que nunca acaba
(a não ser quando se vai definitivamente)
tudo termina para ser possível recomeçar
daqui pra frente.

Breve dezembro.
Te aguardo em breve.

AC


sábado, 26 de novembro de 2011

TEMORES

                  
                        ( texto)

Não temo as almas penadas; temo as gentes!
Mas não temo as pessoas loucas;
temos as pessoas desalmadas!
Pois sem loucura é impossível se viver na sanidade,
tornando ao esquecimento todas as mazelas,
pequeninas ou muito grandes, que a vida impõe.
Não temo a vida; e não temo também a morte.
A vida é esta incongruência inconsistente
à qual conseguimos dar algum sentido, ao termos filhos.
Mas quando morrer, temo a falta que sentirei das pessoas amadas!
Quando a morte vier, gostaria de lhe oferecer uma xícara de café
pra sentar com ela em algum canto e conversar.
Espero com sinceridade não estar demente para isso, pois
talvez ela me dê as respostas que eu tanto procure, em vida.
Porque a vida não conversa, a vida nos toca, este imenso rebanho humano
em procissão sabe-se lá para onde.
De onde, porquê e para que; não, não serão estas as minhas perguntas,
pois então, para que já estas me servirão?
Mas quero perguntar das gentes;
das gentes desalmadas;
do que é loucura e sanidade;
se é possível con-morrer com a imensa saudade.
O que é sorte, o que é medo.
A morte talvez conheça bem os homens de bem e os maus homens, estes e outros elementos que ou me nauseiam ou me fascinam.
E talvez, a morte conheça a mim mesma melhor do que eu,
clichê pobre mas inevitavelmente certo de quem tanto em vida, pergunte tanto e tão pouco responda, sobre si e sobre os outros.


Anita Campos




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

CEM ANOS

                      ( pequeno texto)
   

Hoje, ao dirigir, atentei-me à agitação frenética das ruas.
Cabeças espetadas nos pescoços, passos rápidos diante da vida, que por si mesma passa despercebida.
A vida corre diante de nós e nem nos damos conta disso.
Aprendemos a dividir o tempo, a contar o tempo, a exigir o tempo, a desejar mais tempo, e o que deveria ser somente uma sucessão natural de eventos torna-se um comboio descarrilado de necessidades aflitivas, de urgências e carências que nos pesam.
Nesta louca frequência na qual encaixamos nossas rotinas, nossos cérebros se embotam. Não pensamos.
Agimos e reagimos.
Trabalhamos, dirigimos os carros sem dirigir nossos momentos.
Não degustamos, engolimos.
Não vemos, olhamos.
E, parafraseando o famoso poeta, quando se vê, já se passaram horas-dias e anos.
Hoje, ao dirigir, olhei ao meu redor e aquele meu velho pensamento recorrente ressurgiu: em cem anos, quantas destas pessoas estarão aqui?
Cem anos. Muito pouco para tantas dúvidas, incertezas, desejos e aspirações.

AC



O SEXO DOS ANJOS










Os anjos que orbitam seus sítios celestiais
também ficam doentes.
Sentem dor e frio.
Acalmam-se e se apaixonam.

Não há sangue em suas veias, pois que há fluidos etéreos e ectoplasmas gaseificados.

Há inconstância em suas alegrias.

Os anjos também são rebeldes
ou loucos ou podem ainda ser
soturnos mesmo morando no belo azul
abismal que lhes rodeia.

Não enxergam o que há muito acima
ou o que há muito abaixo,
a não ser o que lhes seja permitido.

Os anjos passeiam em suas hortas de
volumosos pêssegos e saborosas amoras,
colhidos no frescor de suas safras.

E aquecem-se ao se cobrirem com suas próprias asas.

As asas! Ah, capítulo à parte,
pois de plumas e penas e feitiços tão brancos
e pálidos, algumas mais crespas, outras mais lisas,
permitem que cruzem os céus das calamidades,
debaixo de chuvas, trovões e tempestades
e funcionam mesmo molhadas.

Os anjos gostam de água.
Pois não é incomum vê-los sob fina chuvarada,
no interior de tornados ou furacões.

Mas os anjos não falam. Comunicam-se com olhares
e somente se ouve o som de sua doce e aguda voz
quando se juntam para os louvores sinfônicos 
na mudança das estações.

Os anjos podem ser impacientes.
Vestem-se com o manto invisível do céu,
esta fina camada atmosférica de elementos
químicos combinados.

Os anjos são imperfeitos.
Sendo um mundo à parte,
o que fazem, o que querem,
a que seguem ou o que entendem, é difícil dizer.

Bom mesmo é crer que eles existem.

AC

ESPERANTO

Pequena borboletinha
pousada em meu jardim.
Que queres da tua vidinha?
Que podes fazer por mim?

Eu, que me sinto tão só,
me encanto ao te ver voar.
Nesta tua vida tão curta e breve
o que tens a esperar?

Eu, espero por tanto,
ou por mais nada creio ou espero.
Borboleta de asas coloridas,
tua vida é teu próprio esmero.

Tu pousas de flor em flor, pois
é da tua natureza pousar.
Eu não pouso não vôo só espero;
é da minha natureza aguardar.

Neste dia de sol tão quente,
no jardim belo e confidente,
tu guardas na tua essência
a rapidez com que passa a vida.

Se eu pudesse trocar contigo,
muito grata ficaria
em virar uma borboletinha,
a pousar em meus breves dias.

Anita Campos

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ADEUS

Foi tão difícil verter as lágrimas dos olhos ao te ver partir
quanto tão fácil rir deste amor enviesado.
Pois que amor foi este? Onde as vielas da paixão
eram ruas sujas e estreitas e o coração tão cedo
se partiu em pedaços.
Não bebi do mel doce, e sim do fel amargo.
Não tive ilusões ou fantasias meu anjo
nem esperei pelo rufar dos tambores enfurecidos
que um dia pretendi ter ao meu peito.
Meu coração congelou-se ao zero grau de tua
inapetência em me conseguir inteira.
Pois para ti dei-me sempre pela metade,
pensei sempre pela metade
e chorei sempre muito pouco.
Nunca fostes meu amante meu querido,
ah, disto eu rio muito e meu riso é louco.
Como estranhos foram os anos que despendi
a te ver passar com teu cabelo engomado
e teus olhos pouco afeitos à beleza da vida.
Não me fizestes infeliz, que isso fique claro.
Simplesmente não me fizestes nada.
Hoje nos despedimos e rezo a Deus em graça
pois é a ultima vez que nos vemos.

Nesta tua lápide, não porei uma flor sequer.

AC


domingo, 20 de novembro de 2011

NÃO DITO

As palavras não querem sair de mim.
Estão algo tristes, ensimesmadas no seu presságio
de solidão.
As palavras sentem-se sozinhas.
Ficam inertes em suas frases fixas,
negando-se a encontrar a saída.
No meu caderno de resmungos com a vida,
as palavras cansaram de tentar
encontrar sua felicidade vacilante.
Estão aquietadas em seus cantos.
É bom estar assim.
Sem utopias, ainda que com ressalvas
ou resistências.
As palavras querem permanecer sozinhas.
Neste momento
não querem a responsabilidade de trazer alegria,
de dizer aquilo que transformará o mundo.
As palavras sabem dos subterfúgios que
tornam a vida mais tolerante.
As palavras têm tanto a dizer; e no entanto
também desejam a hora de permanecer caladas.

AC

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O TEMPO, O SOL, O MUNDO

O sol não teme por suas virtudes e defeitos
E de vicissitudes o tempo cobre suas auroras
O tempo sobra nas paradas da paisagem
O mundo gira sobre seus pertubares afora


É na eloquência do segundo que não passa
Que se percebe o quanto a alma é fugidia
Nesta alternância de vida e morte nós seguimos
atrás do tempo, esta artimanha arredia


Na armadilha ora tão longa, ora fugaz
Contamos o passo a passo das nossas demoras
Este prolongamento que nunca se desfaz
O mundo gira e giram nossos sonhos afora


Eu sinto o mundo através do meu instinto
e sou o sol temente à brasa ou ao inverno
Invento a hora e alternâncias dos momentos
Crio meu céu e crio o meu próprio inferno

Não tema o sol, o soberano absoluto
pois na contagem tão estranha e tão errada
O tempo é o tudo o nada o antes e o agora
O mundo gira e somem nossos sóis afora.

AC

SOLSTÍCIO

Marco a chegada das guirlandas de alegria
Pois é do sol brilhar no alto sua alvorada
Em dia quente, de curta noite e longo dia
Regressa à casa a doida e breve passarada

Se dilata o tempo em grande distanciamento
Do outro lado terá noite de maior demora
E neste jogo de solar deslocamento
No outro ponto a passarada vai-se embora

Mas nossos elos não podem estar tão afastados
Pois há o temor de que a algema que nos une
Se parta em duas nos tornando isolados

Pois o que lhe afasta é aquilo que desune
E no rompimento desta distância tolerada
A perda mútua é o que se teme e se presume.

AC

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

FOTO ANTIGA

Nos andares superiores moram as velhas senhoras.
Com seus longos vestidos de cauda,
cabelos encomendados em coques altos,
cenho franzido em suas faces conspurcadas.
Não sorriem, não comentam, seguem caladas
no relógio quebrado de séculos de outrora.

Nos andares médios estão os senhores de porte.
Garbosos em sues ternos de corte,
escondidos em seus chapéus de respeito
e espessos e rigorosos bigodes.
Não há um sorriso estampado nas faces duras
das vidas desconhecidas do instante mágico das fotos.

Nos andares inferiores vêem-se crianças antigas.
Borradas do tempo e deslocadas de tudo.
Com fitas de renda e linhos cozidos,
pequenas e por seus paletós engolidos,
não têm alegria em seus espantos mudos,
crianças travestidas de adultos.

A foto é um pedaço perdido;
em um espaço perdido;
em uma dimensão inexistente.
Não fala de amores;
não mostra suas dores
tampouco há cores.

A foto é um retrato
tosco e barato,
não gentil e abstrato
de personagens de cera,
perdidos nas cenas
pouco emocionais de suas vidas.

AC

MORTE

Quando te vi, ali, deitada,
tão humana, tão inerte, tão calada,
não deixei de conjecturar, abismada,
que nada somos, nesta estranha e curta estada.
Como podem sonhos sumir da mente,
os amores, as loucuras, as fachadas.
Para onde vai a vida, em seu limite indolente,
que nos traga inclemente em hora marcada?
Eu, que em nada creio,
não creio nem mesmo que pra vida haja sentido.
E não há martírio, penitência ou paraíso,
no derradeiro instante da existência congelada.
 
AC

MEDO

A relutância mais pura,
burra e sem nenhum senso,
é o terrível contra-senso
que nos deixamos permitir.

Ora, estadia tão breve,
leve, quase faz de conta,
pois é ausente no tempo o registro
de por que somos ou viemos a existir.

E o medo que ronda sinistro,
insisto, ao redor de tão pequena fábula,
nos impede de sermos mais livres
ao contarmos tal curta parábola.

Quanta energia inútil gasta,
alastrada em subterfúgios,
quantos poréns, todavias, conquantos;
carregamos na alma um dilúvio!

E no receio do caminho traçado,
determinado a um simples destino,
jogamos nossas horas ao acaso,
ao fracasso dos determinismos.

Não há mesmo explicação razoável,
não há cura ou chance banal,
de escaparmos do inimaginável,
de negociarmos o ponto final.

E assim vamos nós a andar,
relutantes, medrosos, inseguros,
caminhando lentamente ao chacal,
confluência dos nossos futuros.

Anita Campos

 





MINHA CRIANÇA

          (texto)

Você sempre esteve presente.
Desde o dia do meu nascimento, desde sempre.
Só nos encontramos face a face há cerca de quase 07 anos.
Mas te conheço tanto, há tanto tempo, que disto não tenho a menor dúvida.
Conheço de cor teus sorrisos de afeição, teus olhares sonhadores,
essa tua carinha de anjo, teus comportamentos de medo ou alegria.
Até mesmo tua teimosia sensata, teus argumentos astutos.
Sei que sou muito suspeita pra falar de ti; mas posso!
Afinal, te conheço desde sempre!
Quando tinha 10 anos, já te conhecia.
E nem sonhava que também te tinha tão perto de mim aos 20.
Hoje, com 40, você está aqui, ocupando todos os meus cantos;
minha casa, minha memória, meu amor, meu coração.
A memória afetiva de toda minha vida me leva sempre de volta a um ponto: a ti.
E assim será até mesmo quando não tiver mais aqui. Quando a vida se retirar de mim.
Levarei de alguma forma você comigo, no que sobrar dos átomos espaçados na imensidão do mundo.
Você é minha deusa especial, mistura de boneca, fada e princesa.
Meio humana meio etérea, criança-adulto falante.
E você não tem a menor noção, filha, de como me emociono ao escrever isto!

AC


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CORPO


Dentro de mim,
tenho o vento;
a pressa em nada escapar.

Dentro de mim,
tenho o tempo,
compasso e minuto a esperar.

Dentro de mim,
tenho o norte;
prumo em seu rumo a alcançar.

Dentro de mim,
tenho a noite;
mistério e quietude a tragar.

Dentro de mim,
tenho a sorte;
a palavra a se revelar.

Dentro de mim,
tenho o corpo;
e o verbo a silenciar.

AC


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O NAVEGADOR

               ( para meu pai)


Navego em ondas de poesia,
pelo mundo a desbravar os mares,
os ares, as terras, feitas de neve ou sal,
de poeira, pedra, pirâmide ou esfinge.
Para além do mar, descubro os infinitos,
as possibilidades distantes e distintas,
as pobrezas, dores, alegrias e as fomes,
sou um navegador sedento de energia!
É da minha natureza inconstante e arredia,
não aceitar um só lugar, uma só poesia;
sou um pirata do mundo, em meu barco de euforia,
em que os ventos de emoção e de coragem
empurram minha proa repleta de miragem.
Não sei se nasci de Cervantes, eu, um Don Quixote,
procurando nos moinhos com os quais luto,
minha própria libertária realidade.
Ou talvez, ao tentar desvendar o mundo,
seus mistérios impenetráveis e profundos,
seus povos insólitos, seus destinos,
eu fuja do meu próprio porto,
da minha lenda e de onde me oriundo.
Vou além do meu frágil corpo físico
e ocupo o corpo de tantos outros,
expando minha mente cheia de ideias
traçando minha própria odisseia.
Não aceito assim um simples lugar que convém.
Quero abraçar o mundo, os horizontes além.
E nesta peleja desejada e desatada,
nó perfeito de quem tanto elocubra,
talvez finalmente, nesta incrível saga,
eu próprio me perceba e me descubra.

AC