Total de visualizações de página

domingo, 19 de fevereiro de 2012

TOLOS


A chuva que cai sobre meus sentimentos
não consegue limpá-los das camadas que se alternam
entre receio e indisfarçável incompreensão.
Que é a vida, senão essa tolice....
Procuro a verdade oculta que responda às minhas indagações,
mas a verdade, ah, nós é que a fazemos e que a tornamos.
Portanto não creio nas verdades absolutas,
nas respostas acabadas, ainda que respeite e
até inveje quem se complete nas histórias
épicas de deuses e romances.
Carrego a melancolia do não compreender;
do não querer ser ou sequer estar ali.
Esta característica incorrigível muitas vezes
me soa como uma benção que a chuva
traz ao molhar e tornar os campos mais verdes
e mais sensatos, mais límpidos e claros de enxergar.
Ou, às vezes, é simplesmente a tormenta
que castiga o pântano dos meus pensamentos,
pois o homem precisa da embriaguez do vinho, das festas,
das crenças inquestionáveis e dogmáticas
para poder ir dormir sereno o seu não pensar.
A vida.... essa tolice!
AC

sábado, 11 de fevereiro de 2012

ELOS


            (para Lane e Ados)

A amizade não é definível;
Pois é difícil precisar o que está além ou aquém
do amor, da alegria, da admiração.
A amizade deixa-se testar; e se não passa no teste,
é porque não era verdadeira.
Pois amigos são algo a meio termo entre pais e filhos;
irmãos e irmãs; e porque não dizer amantes,
pois são seres antes de tudo apaixonados um pelo outro.
Nesta paixão, como em qualquer outra, há espaço
para tudo o que nos faz humanos em nossos sentimentos:
para os ciúmes, as brigas, as lealdades extremas,
os atos de incontestável bravura, as pequenas e bobas pirraças
e as imensas verdades da vida, que se trocam e se destrocam
entre os consolos e as tristezas compartilhadas.
Um amigo é a sua caixa de segredos,
é o ombro que seca suas lágrimas e
a mão que lhe ergue mesmo dizendo o que você não queria ouvir.
Um amigo é maior que a própria vida;
contém-lhe o valor e significado
e torna seus dias mais cálidos e suportáveis.
Aqui não preciso dizer que, na vida,
tomamos o destino nas mãos ao fazermos os nossos grandes amigos.
E a vida nos ensina, instintivamente, a separar o joio do trigo.
Meus grandes amigos são aqueles que,
apesar das separações, distâncias e dificuldades,
sempre permanecerão ali, ao meu lado,
ou melhor, dentro de mim.

AC






sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

JOGOS

 

Tenho este defeito, o de expor-me demais.
Tenho esta virtude, de não ter medo em me expor.
Sou os dois lados da moeda:
a incongruência e a retidão;
a vulnerabilidade e o cais seguro;
o medo da vida e o amor satisfeito.
Ao lançar-me para o alto,
terei exposta assim uma face dura
ou uma face rica
ou uma face fria
ou uma face feliz.
Ou será que sou como os dados,
repletos de imprevisibilidade
ou fixos aos vícios dos lançamentos
de resultados únicos.
Tenho este defeito, de tentar resumir
o que é impossível de ser detalhado.


AC

COMO DIZER

                          (para Clara e Elisa)

Eu vos amo com tanto desejo,
que até tenho medo de poder existir um amor assim.
Pois sois de tudo que é belo, o que é mais belo;
de tudo que é mais puro, toda a pureza;
e a nudez do meu sentimento por vós, esta é tão clara
quanto a inocência que soberbamente carregais.
Tenho medo da vida, que vos levará de mim;
tenho medo que não me gostem, algum dia, em algum momento
 - vício fatal da natureza das relações humanas!
Mas neste preciosos momentos feitos de minúsculos segundos,
em que vos amparo ao meu colo,
em que ouço vossos gritos de alegria, vossos pequenos e inocentes prazeres,
guardo comigo a fotografia deste instante congelado do pleno amor,
o mais repleto de existência, sentimento e profundidade.


Mamãe



MINHAS DORES


             ( homenagem a Florbela Spanca)


Trancada estou na torre do mistério e desalento
Onde as horas passadas são o amargor vazio
Refúgio das palavras que percorrem o frio
Que a alma sente, sozinha e aprisionada

Quero a libertação em todos os momentos
A doce sensação do abrandar gentio
Quero o degelo deste torpor doentio
Pois é o meu maior desejo: ser-me libertada!

E nessa ventura triste do alto da torre
Onde não há janelas ou tampouco escadas
Só há um vão possível para a liberdade
Saltar aos doidos ventos, no alto da sacada

E ao saltar, aos quatro cantos, em livre queda
Tenho certeza, serei sim amparada
Pior que a prisão da morte pré-anunciada
É a prisão em vida, retida e abandonada!

AC