Leia! Há de ter a sensibilidade necessária e talvez até paciência para entender as linhas ou as entrelinhas. Há de ser puro de coração, para permitir que a poesia ou o texto o invada. Tal qual um aroma, você pode senti-lo, sorvê-lo, inundar-se, e pode até tocar as palavras, seduzindo-se pelas infinitas possibilidades de interpretações e beleza. Quisera todos tivessem a mente aberta e o espírito livre para isso!
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013
A ILHA 2
Eu não quero assim, os dias poucos.
Roucos como pássaros sem canto.
E preciso das rotas de fuga marcadas
Preparadas para me guiar um tanto.
Quando esse dia chegar, assim, do nada
Estarei sentada com as mãos nas malas
onde estão guardados meus desejos.
Abjetos defeitos, pois como podem
existir desejos sem fé?
Se não me norteio, pois não há um norte;
Se vago a procurar coerência,
perdendo-me mais que me encontrando
no pátio destas abstinências
Se não me encontro com a felicidade
pois nela nem acredito, nem me fio
Resta somente uma colisão de rotas,
desvairadas, travando-se no frio.
Eu quero assim, a vida breve
E tão somente justa que o destino me couber
Na ilha isolada de medos e lutas
não há como resgatar os desejos sem fé.
AC
DESVIOS
A beleza da palavras que me compromete
Que me revela
Que revela que não sei o que quero saber.
Mas sei.
Sei das noites geladas,
Dos dias surdos,
Dos domingos sem compaixão.
Eu sei.
Sei da brisa desejada
E do brilhos destes olhos,
marejados, tardios, escuros.
Quanta adjetivação.
Como elucidar uma vida?
Como retratar-se,
digo, pintar-se em autorretrato?
Não sei.
Tudo que sei vem da dor
que sinto
Talvez saiba, no fundo,
o quanto minto.
AC
O RETRATO DAS MINHAS FILHAS
Aqui, nestas páginas,
o tempo doce, a vida sadia.
O sonho mais belo,
fruto maduro no tempo certo,
colhido na hora exata.
Aqui, a doçura da vida.
Folheio-as: revivo cada momento.
Aqui, pura felicidade.
Sem dores, mundo perfeito.
A rosa que não me fere,
palavras em rima,
sorte, sucesso.
Risos: minhas obras-filhas!
Aqui, a quietude,
a paz interior que, sim! pode existir
Flagrados em um tempo
onde se acredita em Deus
e as bençãos são eternas.
Passo as páginas: minha sucessiva vida.
Aqui, ainda assim,
sou capaz de sentir-lhes o cheiro!
Ouvir as risadas
que não se vão com o vento,
ou que o vento sempre traz de volta.
Aqui, sempre a volta: alegria, amor, alegria.
AC
sábado, 17 de agosto de 2013
VIDA
Eu, que tudo tenho
Que nada tenho
Que tanto temo.
Que tenho tanto medo.
Eu, que me intrigo
Que não entendo
Que tanto insisto
Tanto desisto.
Eu, que sinto pena
Que sinto frio
Que sinto tudo
Não sei de nada
Imensidão
Princípio e fim
Piscina de aneis,
elos desencaixados,
caixa repleta de coragem fingida.
É difícil entender.
Por quê a vida.
AC
Que nada tenho
Que tanto temo.
Que tenho tanto medo.
Eu, que me intrigo
Que não entendo
Que tanto insisto
Tanto desisto.
Eu, que sinto pena
Que sinto frio
Que sinto tudo
Não sei de nada
Imensidão
Princípio e fim
Piscina de aneis,
elos desencaixados,
caixa repleta de coragem fingida.
É difícil entender.
Por quê a vida.
AC
terça-feira, 13 de agosto de 2013
MEDÍOCRE
Se tudo tenho e queixo por tão pouco
E o que resenho, em todas as paradas
É infiel retrato das minhas caminhadas
O que não há, dói como sonho louco
Se quero tudo e julgo tão pequeno
Ser necessário ter mais sempre e tanto
Vivo a respaldar humano desencanto
Ao não encontrar o tolo humor sereno
Pois ao acatar a insana criatura
Que vive a chorar eterna insatisfeita
Que vive a sina de temer por tudo
Passo a sentir-me tal caricatura
A perseguir uma felicidade eleita
Nunca encontrada, e vivo assim em luto.
AC
E o que resenho, em todas as paradas
É infiel retrato das minhas caminhadas
O que não há, dói como sonho louco
Se quero tudo e julgo tão pequeno
Ser necessário ter mais sempre e tanto
Vivo a respaldar humano desencanto
Ao não encontrar o tolo humor sereno
Pois ao acatar a insana criatura
Que vive a chorar eterna insatisfeita
Que vive a sina de temer por tudo
Passo a sentir-me tal caricatura
A perseguir uma felicidade eleita
Nunca encontrada, e vivo assim em luto.
AC
terça-feira, 6 de agosto de 2013
A CAIXA
Escondi, na caixa, o pio do meu passarinho.
As risadas dos meus amigos.
Os gritinhos das minhas filhas.
Belas músicas portuguesas,
fados dolorosos e encantados.
O estardalhaço da buzina dos carros.
O som da conchinha do mar.
O suspiro do enamorado.
O trote de Clara em seu cavalo.
E de Elisa, o chorinho emburrado.
Ah! Guardei...
Vinícius recitando poesia
e Caetano cantando "Alegria alegria".
Palavrões de desordem e protesto.
O chiado que sai da panela.
O assovio do outro lado da janela.
A conversa inaudível dos golfinhos.
O choro mais belo da vida.
E a risada mais singela de ouvir.
O último soluço do guerreiro.
E o ruflar das asas da liberdade.
É de espantar, de verdade,
que neste caixote quadrado,
guardei tanta lembrança da vida.
Que até nele guardei com cuidado
o pio do meu passarinho!
BREVIDADE
(para Tio Fernando, com amor)
Éramos os três
que iam ao mar.
Duas crianças, um adulto,
meu tio, zeloso, a cuidar.
Nas fotos guardadas da infância
vocês sempre estão lá;
nas brincadeiras no mar;
no picolé (que não devia aceitar).
Nas traquinagens no quarto,
pendurados na janela;
na árvore que ainda hoje
existe, quase de sentinela.
Eu, meu primo, meu tio.
Um dia, a vida mostrou
seus dentes:
meu primo morreu;
meu tio doente.
Eu não queria ter visto
a vida tão feia assim.
Um primo predestinado
a ficar preso; burlou a vida,
aceitou a morte,
brutal e intolerante morte!
Meu primo queria ser livre e
liberto finalmente foi.
Agora, restávamos dois.
Mas meu tio, querido,
doente,
que dor vê-lo sendo levado,
pela vida, que mostrou seus dentes.
Que dor pressentir o futuro
tão próximo a estar longe de ti.
Mas quero que parta, querido,
pra onde as dores não irão,
não mais, não mais lhe afligir.
Ontem fiquei com você.
Ternura e fragilidade;
o homem virando bebê.
Vi o que não quero ver.
Ainda custa-me a crer
que éramos os três que iam ao mar.
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