Total de visualizações de página

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SORRISOS CONGELADOS

O sorriso congelado me espreita, me encanta.
Seduz-me o charme retido no lapso da memória
da máquina fria.
Aquilo durará eternamente.
A áurea doce, tranquila, convicta
de que  piores aflições não existirão.
São olhos jovens e cheios de energia;
de pessoas talvez belas, talvez difíceis,
talvez mansas, talvez intransigentes.
Por detrás da foto, respiramos a vida ali contida.
Tão belamente enquadrada, guardada
ao seu lado, na mesa de centro, na mesa do canto,
no console, no criado-mudo.
Dentro da mente.
As pessoas insistem, estão tão vivas, tão
real ou irrrealmente felizes, na fantasia
colorida da foto.
Impossível não admirá-las
ou não imaginá-las eternas.
As fotos nos enganam.
Tentamos burlar a morte,
mostrando-lhes a incongruência
de toda esta riqueza simplesmente sumir.
A morte não se compadece.
As fotos, e não as pessoas, existirão para sempre.
As pessoas restarão
nem sempre do lado da cama,
na mesa de almoço,
na compainha do bar.
Talvez resistam para sempre emolduradas em seus belos sorrisos.
Sim, certamente, os sorrisos durarão para sempre
dentro da mente.

AC






domingo, 27 de janeiro de 2013

SE FORAM


Palavras em lábios que procuro
Amigos cujos destinos tanto desejo
E no final do dia estou só

Sonhos que se escondem em fria realidade
Gestos cúmplices que não existem
E no final do dia estou só

Cabeças ordenadas a como pensar
Eixos orientados a uma direção sem curvas
E no final do dia estou só

Passeios sem flores ou doces,
Belas pedras portuguesas fatigadas
E no final do dia estou só

Casas com muros altos
Cercas de impossível transposição
E no final do dia, estou só

Chuva que nunca refresca a alma
Nós retorcidos pelo corpo
E no final do dia, estou só

Gentilezas que não me procuram
Afeições que canso de tentar oferecer
E como me sinto, ao final do dia, só.


AC





quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

ESCOLHAS

Vim te visitar, amor secreto,
afogada de saudade deste refúgio
onde fico tão liberta.

E meus pensamentos explodem,
me contaminam, e quero
esta doença eloquente.

E desejo tudo, o céu, o mar
e o colchão de amar do poeta.

E tomo as palavras pelas mãos
e com elas passeio pelos
arredores da vida.

Os jardins todos se oferecem
e as rosas, despudoradas,
abrem suas pétalas.

Ah, meu doce recanto,
onde encontro todos a um só tempo,
na memória do pensamento.

Nos meus olhos fechados,
tenho à frente as cores
de Marc Chagall

Eu sou a moça que paira
sob o fundo onírico de
uma de suas telas

E sou a virgem de Vermeer
com pingentes de pérola,
sou o grito amordaçado de Munch

Sou a menina do colar de coral,
um verso de um soneto de Vinícius
e do meu pai,um conto surreal 

Eu sou a pequena Sofia
aprisionada na história dentro
de outra história

E Juliana arfante à espera
do primo-amante, o incesto
predestinado dos Maias

Não tenho limites! Tenho livros,
afrescos, paisagens abertas onde
deixo passear livre a minha moral!

AC









sábado, 5 de janeiro de 2013

CETIM



A tela em branco me olha.

Me espera.

Me analisa.

Paciente, impaciente.

Não se exaspera;

não tenho todas as respostas.

Tenho devaneios, miragens

e saudade impertinente.

A tela em branco não pisca.

É fria observadora coerente

na sua passividade ambígua.

Me espera.

Me fustiga.

Quero dizer algo que valha,

palavras belas,

encantos singelos,

lirismos.

A tela continua aqui.

Impávida e inflexível,

bidimensional.

Às vezes ela convida.

Em outras, castiga.

 

AC


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O INÍCIO


O que fica de belo escrito?
O que resta, no fundo da alma?
Que me soma este céu incisivo?
Que me toma essa raiva ou calma?

Tenho na noite duas estrelas
E nas estrelas, brilhos
e nos brilhos, luz
e o início do mundo.

O que me pesa na outra balança?
Qual receio do tudo ou do nada?
Com qual passo adianta-se a dança?
Que se passa na casa assombrada?

Tenho na noite dois brilhos
E nos brilhos, ardor
e no ardor, os trilhos
do início do mundo.

AC