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domingo, 30 de setembro de 2012

O OCULTO



Mistério louco, perdido,
arredio, fugitivo.
Inalcançável tradução,
dedução empírica,
fanatismo.
Desorientação,
segredo, inconfissão,
verdade velada,
martírio.
Incompreensão,
insubmissão,
porta portão cadeado,
mal entendido.
Engrenagem de elocubração,
desejo de descoberta,
hipótese, tese,
o que se tenta inferir,
dedução, subjetivo.
Silêncio.
Inconsistência.
Frase não dita,
verbo alienado,
história não escrita.
Sabor que não chega à lingua,
calor que refria
um frio abrasador.
O medo da dor
do desconhecido.
O que não se sabe
e se entende,
o que não mostra
o que se pretende.
Esconderijo que não se alcança,
albergue fechado,
lacre dissimulado,
mistérios míseros,
nunca conhecidos,
nunca revelados.

AC
 
 



sábado, 29 de setembro de 2012

FILMAGEM


Peixinhos nadam arredios,
pequenos seres velozes
que não se comprometem
com nada.
O toque lhes é desagradável.

E flores nascem macias,
exibem-se ao sol e à chuva delicada,
inebriam olfatos,
procuram a luz como a terra molhada.

Borboletas vivem com rapidez
seu ciclo tímido de vida,
tão sem tempo para serem felizes,
pois os minutos custam-lhe caro,
alheias à sua própia beleza.

Sorrisos recolhem-se e expandem-se
por toda a parte.
Trabalhos de arte, o escultor
em seu mais divino momento,
ao esboçar na face a alegria
da face.
A boca em seu desabrochar.

Belezas oferecem-se com despudor;
na alegria das crianças,
no torso nu dos corpos,
na retidão de principios,
nas apropriações inegociáveis
do querer ser feliz.

Mas tristezas são inevitáveis.

Ó tola vida!
Para cada um, um filme consequente
em um ritmo próprio,
tantas vezes indiferente!

AC







O ABISMO


O amor lançou-se ao abismo,
levou com ele a beleza das ilusões,
a inocência do querer bem e
a despretensão tola de quem só quer,
sendo a si mesmo, ser feliz.
O amor abriu suas asas de ambição,
as que alçam vôo ao paraíso,
(terra inalcançável)
e deixou-se cair onde estão
encolhidas a um canto dores
e comiserações.
O amor queria ser sublime,
maior e melhor do que tudo.
Queria nascer com o sol,
mas nunca pôr-se ao entardecer.
Passaria incólume pela noite,
pântano escuro dos medos.
Viajaria pelos sonhos mais belos,
esvaziando mentes ansiosas
e enchendo corações com sangue puro e fresco.
O amor seria só alegria,
a festividade carnavalesca da alma
em sua mais bela fantasia de sublimação.
O amor passaria ao largo da infelicidade,
em seu desinteresse pleno de não,
tão somente, satisfazer-se.
Mas é impossível ser tão alheio
e ignorar a impiedosa justiça da vida.
O amor lançou-se ao abismo,
cansado de procurar o que talvez não exista.

AC







terça-feira, 11 de setembro de 2012

A ALIANÇA


Em que me alio a você?

Neste círculo do infinito
que nunca começa, nunca termina
e passa a vida em eternidade,
a rodar sem parar, sem parar de rodar.
No ciclo que determina
este aro tem significado,
pelas voltas que se sublimam,
início e fim na mesma rima.
O anel, o aro perfeito,
mas de encaixe nem sempre esperado;
na geometria sem defeito,
no esmero deste objeto,
o círculo depõe contra si mesmo
ao não se finalizar por completo.
Do fim já se reinicia,
eterna coalizão de sucessivos
erros - ou acertos.
E do início já marca o final,
linha redonda do sacrifício,
consertos para o bem e mal.
No mesmo tom em que se alinha
ao girar na mesma frequência,
a aliança impõe um ritmo,
dificil sequência em vida real.
A aliança é esse risco,
riso que não se complementa,
artifício que se retroalimenta,
arquitetura superficial.

AC










domingo, 9 de setembro de 2012

A TELA

Sou uma tela;
pinto, desfaço com óleo, tento outras tintas;
sou este borrão.
Desenhos em cima de desenhos,
desejos nunca alcançados
nesta imperfeição de guaches
sobrepostas.
Sou este erro
em cima de erro,
a moça que nunca se esboça,
a sombra mal colocada,
o canto mal iluminado.
Sou as tentativas frutradas
de tentar ser.
Mas minhas linhas são muito tortas;
por isso, nunca estou bela.
Em rabiscos ora de alegria
ora de frustrante dor,
melhor seria ser a tela sempre em branco,
adormecida em algum canto,
esquecida pelo pintor.
AC

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PELEJA


Tenho esta dissolução absoluta da alma,
abstraída em minhas próprias penitências.
As que invento, participo ou desejo,
a desencarnar-me na acidez da minha essência.
Eu sou o fogo que a si mesmo alimenta,
descompasso que se anula e destrói.
E meu socorro é este sorriso que acrescenta
uma febre santa que em meu peito se constrói.
Nestes incursos de plena submersão
em meus desejos, meus defeitos e virtudes,
figura uma concreta e tola obsessão
por meramente conhecer-me em plenitude.
Mas saber a si é tão difícil e ineficaz,
pois sendo uno, somos vários em um mesmo.
Sou a antítese e síntese que não traz,
absolutamente, a paz e harmonia que desejo.

AC 




terça-feira, 4 de setembro de 2012

BEM VINDA!



Cá vem lúcida e vistosa a primavera
Com florais deslumbres em forma de cores
Carregando o sol e outras quimeras
Desejos enrustidos nos cheiros das flores

Tão repletas e intensas são as manhãs
Destas orquestrações divinais da natureza
Que temos as faces rubras tal qual maçãs
No queimar do sol,fim do inverno da rudeza

No desfile eloquente dos pincéis
Não se sabe de onde vem tanta alegria
Em aliança a primavera põe seus anéis

Pois se é tanto o desejo da alforria
Flores abrem-se em oferta aos seus pés
Adeus ao frio e à sua vil melancolia!

AC