Total de visualizações de página

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

LIQUIDEZ

Eu, sentada deste lado,
miro no oceano a certa loucura do meu desejo;
úmido, como a maré,
intenso, como a força da onda,
tormentoso, como a correnteza,
forte, como esse colosso de águas.

Eu, sentada na beirada,
belisco com a ponta dos pés o teu corpo,
e pelas marés tateio o beijo longínquo,
procuro tuas mãos quentes,
conduzo tua boca cálida,
volúpia minha guardada em ti em segredo.

Eu, então do outro lado da terra,
sempre vou a ti, e sempre vens a mim,
no influxo e refluxo das marés,
neste balé provocador que incita instintos
e dá ritmo aos corpos.

Talvez seja enfim a saudade da maré 
o verdadeiro destino
e o oceano, quiçá, a imensa cama aberta,
pacientemente, à espera.

AC

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Breves discussões cotidianas

Sobre os julgamentos:

E quem sou eu, para julgar os outros?

Como posso me justificar diante da necessidade humana de apontar falhas, indicar desvios, repelir compaixões?

Como pode um ser antropocêntrico, alter ego, mas repleto de falhas e contradições, sentar-se na cadeira alta do magistrado para impor suas vontades sobre às de alguém?

Como posso achar-me criatura maior ou melhor, desde que os pecados alheios não sejam insuportavelmente impiedosos?

Sim, julgo os assassinos; os criminoso de guerra; os fanáticos de qualquer natureza. Neles recai o meu carimbo de incompreensão, o meu desprezo, a minha incapacidade de assimilar as loucuras. Tranco-os nas jaulas dos malditos, expulso-os do paraíso - ou do inferno - da convivência humana.

Mas para a maioria dos mortais que fazem suas escolhas honestas...sou tão igual aos demais em minhas próprias falhas, que não cabe a mim arbitrar.

AC

LAMPARINAS

           (para elas)

Eu, te carreguei no colo,
luzinha minha
nascente de segredos pequenos 
e alegrias desmesuradas
docinho pacientemente dourado ao forno
telha onde a chuva gentil me atinge
mas não raios e trovões
tato da maré calma batendo em meus pés
trazendo o murmúrio das ondas
colarzinho de cristais antigos
pequena concha rosa despida na praia
fuga para o túnel das maravilhosas lembranças
chocolate aquecido derretido 
tom do azul em um belo céu de inverno
manto colorido de patchwork
bordado delicado de crochê antigo
teia graciosa de aranha
escadinha para a estrelinha do céu
alegre bolha de sabão
canção de ninar e ave-maria
bichinho de pelúcia
labirinto de eternas novidades
fonte da paixão
rosa de amor dos destemidos
fulgor do sol, frescor da lua
bailarina da minha caixinha de música
frescor eterno da juventude
pequeno cantinho de mimos
e de fadas encantadas
bater de asas das borboletinhas
caramelo, bala de côco, doce de leite
arraiar do dia, sono bom da noite,
sonhos de vida e alquimias.

Eu, te carreguei no colo,
poesia minha.

AC

DO QUE É PROFÉTICO


A gente vive das saudades das gentes,
das saudades dos tempos de agora e outrora
das saudades dos filhos quando ainda pequenos:
sempre é no passado que a saudade se arvora.

As saudades da água que um dia secará
as saudades dos bichos já quase extintos
como dos elefantes mortos nas torres de marfim

As saudades dos peixes que um dia nadaram
e das cores em mosaicos de antigos artesãos
e do tempo onde a hora é infinita e demora

As saudades dos insetos cavando no chão,
nas terras batidas e com cheiro de charco:
a saudade só em vilas antigas é que mora

As saudades das moças nos velhos retratos,
tranças no cabelo, longas saias de linho
a saudade em recato que o tempo despudora

A gente vive das saudades antigas
Inclusive de tempos em que nunca vivemos
saciados que estamos da vida no agora!
Pois há sempre um passado, na saudade que arvora.

AC