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sábado, 3 de fevereiro de 2024

TESSITURA


Ela era muito nova, e gostava de tessituras.

Gostava das peças brancas de algodão estendidas no varal, dos lenços de linho empilhados sobre a mesa, do veludo amornado pelo calor da lareira.

Gostava dos livros equilibrados em estantes variadas, das cortinas de saias volumosas, dos tapetes puídos e já não tão mais vistosos.

Gostava dos vestidos bem estruturados, recortados e moldados em finas cinturas, das presilhas a sustentar curvas de cabelo claro, e do cheiro amanhecido das colônias de maçã. 

Gostava do café,  recente ou requentado. 

Gostava da luz forte a arrebartar-se pelo vão da sala, a luz das manhãs quentes e bem esclarecidas.

Gostava das conversas das moças na outra sala, da trama do crochet entrelaçado, do barulho ordenado da máquina de costura.

Encantava-lhe o molejo lento do ponteiro dos minutos perseguindo as horas.

Gostava da doçura derretida pela boca, molemente, quando os sequilhos se dissolviam lentamente na saliva.

Gostava das suas curvas delicadas e deslumbrava-lhe sobretudo, os seios, duas pequenas conchas de amor a embelezar-lhe o torax. 

Ela era tão moça,  e gostava tanto dos gestos, formas, sons, modos e palavras, feições, relevos e melancolias, e das alegrias a fustigar-lhe a alma.

E o café, ah!  Como o amava.


AC