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quarta-feira, 29 de julho de 2015

FENDA

De tudo que é etéreo,
só sei que um dia
não sentirei mais a brisa leve
no meu rosto desencarnado.

Dormirei o sono dos excluídos.

Mas se olhares bem meu jazigo, verás,
repousando ao lado do meu corpo inerte,
o que um dia fui: meus desejos, meus tormentos, meus sentidos.

AC

segunda-feira, 27 de julho de 2015

EDUARDO

                   (para meu pequeno paciente Eduardo)

Menino de faces sardentas, olhar desperto
inquieto e que a todos deixa alerta
ao nos abandonar tão atordoados
com as traquinagens que falas!
Ô menino que ninguém controla
a língua a boca os dentes!
Despejas a tua esperteza
a pressa dos pensamentos
mas tão depressa tão depressa
que nos larga perturbados
e dás nó na cabeça da gente!
Tu não esperas um minuto menino
pra sequer tomar fôlego e ar
antes de disparatar
o teu carrossel de astúcias
deixando teus pais adoidados!
Ô menino que não-para-quieto
Dai um minuto para nós menino
ô menino sabedor e versado
de um pouco em um muito tudo
e do tudo em um muito mais.
Ô menino sagaz, irriquieto,
quando bem velhinha for
e tu já um homem feito,
e ouvir sobre o homem-menino
que foi parar em Saturno e Plutão;
que nadou nas costas de mil golfinhos;
que inventou a máquina do tempo;
que deu nó em pingo d'água;
Saberei, menino travesso,
que alcançastes o teu impossível
e talvez neste tempo incerto
terás sossegado o alvoroço
deste espírito intrépido !

AC


sábado, 25 de julho de 2015

AS DAMAS

Damas desgovernadas dos seus destinos
que nada percebem, nada pressentem, nada provocam.
Não assimilam os amores que evocam
ou os pavores em trens descarrilhados.
Damas enclausuradas em suas preces
que em nada mentem, nada entendem e em nada tocam.
Não compartilham dos temores mais abstratos
ou das lembranças de loucos elos elocubrados.
Damas assim, tão vagarosamente inertes,
morrem na praia, vagam no abismo,
se pisoteiam e nem mesmo sentem!
Damas demais, de altos muros e olhos vendados,
só rezam em murmúrios, e nem com lamúrios
se arrefecem.

AC

MÓRULA


Belo fervilhar de rabichos mágicos
nadando na fonte da vida, leitosa,
em busca do seu encontro ovular.
Os perseverantes chegam lá;
alguns jazem pelo caminho, pois toda luta de vida
é também uma luta contra a morte.
O sol exuberante e majestoso está no caminho,
fervilhante, exalando suas exaltações químicas.
Atraem os pequenos girinos ao seu encontro
para saciar-se neste conjunção amorosa.
Ao que consegue entrar,
fundindo-se com seu beijo fatal
segue-se o milagre teatral:
pares unem-se, siameses;
e neste coito íntimo de encontros
e arrumações, você acontece.
O que não havia, há um segundo atrás,
passa a existir, como num passe mágico e sublime.
Como pode então tudo se orquestrar
magistralmente ? Pois os pequenos encaixes
mandam e desmandam, formam e reformam,
nesta producente arrumação da vida.
Tudo ao seu lugar.
E logo um serão dois, quatro, dez, mil.
E ali está, subitamente, quase todo o destino;
ali está o amor, a alegria, a fome,
a tristeza, o choro, a preguiça,
a incerteza, o suor, o frio,
as angústias, as decepções,
a beleza, a agonia, a tolerância,
a paciência, a irritação, o sono
e quem sabe, até, o último dia está gravado,
o último suspiro já venha gravado,
no primeiro suspiro do magnífico despertar.

AC

sexta-feira, 24 de julho de 2015

PALAVRAS PERDIDAS

É tão difícil
Verte-lhes, palavras,

Diante
da frieza inútil
com que o mundo as recebe.

Tão despossuídas de si mesmas

Tão esvaziadas em suas essências

são as pessoas.

É tão triste,
Desperdiçar-lhes, palavras,

Pequenas pedras preciosas
de ritmo, precisão e
beleza.

Mas ainda restam 
Os que as contemplam
Os que as respeitam
Os que as acolhem
Como um pai que, cuidadoso,
rega o jardim de sua vida
depositando-lhe pequenas sementes
de ousadia e liberdade.

AC


BENTO

               (para um gatinho especial)

E então eu, que achei que iria ter de decidir
pelo abrandamento eterno 
pelo caminho irredutível
pelo fim intransigente
Entendi que você escolheu por mim
como que para aliviar minha angústia;
e, humilde, quase recatadamente,
ausentou-se no ciclo da vida.

Vai, gatinho, vai,
Aplacar suas agruras 
e levar sua doçura para papai do céu.

Eu lhe vejo, agora,
pulando, aliviado, no cetim frouxo das nuvens,
cauda em riste, 
saltitando feliz com os outros anjinhos,

E posso até ouvir o som da sua deliciosa risada
Um miado que é o verdadeiro trovão dos céus.

AC


domingo, 12 de julho de 2015

COMEÇO

   (para Tio Fernando)

O anjo subiu,
voltou ao andar da paz
onde só os puros andam de cabeça erguida.
Onde os guerreiros vencem suas
bravas lutas.

Para o reino da paz, 
quiçá desconhecido,
(mas que deve existir),
vão os de espírito fraterno,
os de coração bom,
aqueles que, mesmo mortais,
tornam-se eternos.

Talvez aí seja de fato o começo,
o prelúdio, o princípio de todas as coisas;
e talvez aí também resida
a glória eterna do existir,
finalmente o descanso merecido
e a perenidade.

AC






SEGUNDA QUINZENA

Eu me reconheço 
em sua tristeza
em sua quietude
em sua doçura.
E para a incompreensão do mundo
eu recomendo 
destemor, ousadia e autoestima.
O mundo não se amolda a você.
O mundo não irá tolerar sua brandura
e irá lhe cobrar a toda hora
sua felicidade,
a alegria frouxa e evanescente
aberta em dentes.
Tantas vezes,
fiz de você meu esteio
para as horas difíceis.
Tantas vezes,
o que me segurou foi tocar em você
e sentir esse amor denso e sublime.
Eu tanto gostaria
que o mundo compreendesse
a sua singularidade.
Eu lhe desejo boa sorte.
E tantas vezes me pergunto
se é você que é tão agarrada a mim
ou se sou eu que sou tão agarrada a você.

AC