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sábado, 31 de dezembro de 2011

ÚLTIMA PALAVRA


O próximo poema, fica para o ano que vem.
Hoje já não se pode sofrer, chorar, pois é 31 de dezembro.
Hoje é imperativo estar alegre e cheios de esperanças.
Mesmo que o que se mude é o passar de uma página
de um calendário.
Hoje já é tarde demais para os medos; não calha mais alimentá-los.
Amanhã ainda nem tudo será possível, e as dores deverão continuar trancadas por
pelo menos mais uma semana.
Neste período, nos convidamos a estar em lua de mel com nossos sentimentos.
Como em um passe de mágica, tudo fica suspenso no ar, as ruas ficam mais vazias e
os dias parecem mais longos do que em qualquer outra época.
Depois, lá pelo dia 10, podem voltar a fazer suas preces!

AC




sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DIFERENÇAS




Dormir cedo, ou dormir tarde?
Viver a sua vida, ou a vida dos outros?
Felicitar-se em por rótulos, ou viver cada macaco no seu galho,sem perturbar os alheios?
Fácil trancafiar os outros nas masmorras do seus julgamentos.
Não olhe para a vida dos outros e seja amigo somente quando for solicitado, pois além de ser inútil sua vã e arrogante tentativa de modificar o que é diferente de você, pode ser bastante indelicado.
Afinal, o que é certo, normal ou errado?



Anita Campos




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O RIO




Aqui me tens!
Oferta deliberada aos teus encantos
Aqui estou!
Aberta e tão liberta aos mil sabores
Deita-me e devagar
descobre os meus sentidos,
retira os meus pudores
e atiça os caminhos
que receberão o teu rio
furioso e sedento,
nestas margens em que
repousarás depois,
livre e sereno.


Anita Campos


PÁGINAS EM FOTOS


Destas palavras atenciosamente dispersas
sepultadas em amargores
sedentas de energia
sôfregas em seu desejo de libertação
Destas palavras que arroubam sentimentos
e se lançam na catarse dos momentos
não tementes à dor, sordidez ou timidez
revelando-se tanto ou tão pouco claras
Destas palavras muito usadas
puídas e desgastadas
e que são o que há maior de esperança
em seus enigmas de beleza, som e movimento
Destas palavras, saiba, que é da natureza do que se
escreve ou se fala:
mentir e ao mesmo tempo desmentir.
De um modo ou outro, as palavras são fotografias
tão expostas e incrivelmente reveladas.

AC




DEZEMBRO


Do fim que me foi dito
Não há ciclo em destempero
A colheita dos dozes meses foi bem farta.

Do então que já precede
Vem o porventura a semear-se
Safras novas no destino de outras cartas.

Do entretanto que é contínuo
Não paira dúvida ou desamparo
Que é do homem marcar e seguir caminho.

Nesta conta equacionada
Em pares meses e escolhas ímpares
Prosseguir é o proceder em desalinho.


Anita Campos




sábado, 24 de dezembro de 2011

O AMIGO


O amigo, o amigo, o amigo
está ali perto da esquina me contemplando,
fervilhando junto com meus pensamentos
e embarcando comigo na louca viagem da vida.
O amigo não tem medo das palavras que soam
insanas, dos sentimentos despejados sem tantos pudores,
o amigo não tem medo do que tem a ler, sejam os títulos
de tristeza ou euforia.
O amigo é capaz de se deixar entreter e se levar pela existência
não tão conformadinha.
Ele enxerga além dos fatos e quando necessário,
também sabe se aproximar da janela para dar uma espiadinha lá embaixo.
O amigo não tem tanto medo, ainda que todos saibamos que o medo
faz parte de nossas vidas, mas que a coragem reside em não resistir ao medo,
experimentá-lo e deixar-se levar.
Este amigo não aceita os rótulos e só quer viver a sua vida do jeito
que ele próprio quer traçar, sem aceitar imposições.
Pobre de quem em vida não conhece uma pessoa assim,
que se contenta em se encaixar em seu "otimismo alienado"
e só suporta as pessoas impessoalmente felizes,
aquelas que se sentam na mesa do bar para não falar de nada,
e conviver com o nada e sua fácil felicidade pelo resto de suas vidas.


Anita Campos



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

ACALANTO

 

Nesta tristeza calada,
não há nada.
Não há medo.
Não há beleza.
Não há riqueza.
Navios de pirata afundados.
Rainhas posando em belos quadros.
Bebês em brancas mantas embalados.
Louvores em lindos sopranos afinados.
Frutas colhidas com o sabor tenro e adocicado.
Peixinhos em correntezas naufragados.
Na tristeza calada,
não há receio
e sim espaço para os devaneios.
 

Anita Campos

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ESTA JANELA



Da moldura da janela há alternância
Pois vejo um abismo frio que se agiganta
Imenso vazio a que se destina o precipício
Ou contrariamente o fim é a sede do início


Pois da janela também se vê belo horizonte
O mar longínquo o pássaro em voo rasante
Esta desejada e temerária liberdade
Só se é livre ao se aceitar toda a verdade


Pois é a janela da vida o próprio símbolo
Onde nos debruçamos para sonhos e delírios
E nos afastamos ou aproximamos em uníssono


Sendo ou o altar de inconfessáveis martírios
Ou o anteparo para o mundo rico e belíssimo
Apoiada estou no balcão da sorte ou sacrifício.



Anita Campos




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DEPOIS

Estas tintas tão desnecessárias,
com as quais retrato minha vida...
Onde o sorriso se escondeu?
Quando a chama se apagou?
Alguém fechou a porta do teatro
e fiquei sozinha lá dentro.
Assisti à comédia e ao drama.
Vi o tempo passar, com seu riso
forte e provocador.
E quando o tempo passou,
levando com ele toda minha energia,
e a porta teatral foi aberta,
vi que pouco restou.
Fiquei tanto tempo em mim,
que esqueci como era ser para os outros.
Esqueci muitos significados.
Lembro que já houve um sorriso,
uma chama, belas tintas e
quadros memoráveis.
Lembro que muito foi perdido.
Mas, veja, fiquei tanto tempo
afastada, e tudo agora me é
desconhecido.

Anita Campos




O CRIADO


O criado-mudo está vazio.
Dei-lhe um belo vaso de flor.

Gosto deste nome: criado-mudo.
Pois ele de fato nada revela, em sua discrição elegante.

Em sua gaveta, estão guardados
remédios, frascos, memórias e fatos.

Todos ali, escondidos,
expostos quando a gaveta é aberta.

Como numa fantástica caixa de brinquedos,
onde encontramos a boneca mais nova
e a mais velha.

Ali dentro, os sentimentos vão sendo depositados:
o medo, as aflições e as esperanças.

Posso, aos poucos, retirar só o que preciso,
mas às vezes isso é impossível.

Pois quando a gaveta escancara,
pode saltar para fora e de vez tudo que foi
passado ao lado do criado-mudo.

Cada dono do seu, sabe o que ele esconde,
compromete ou compartilha.

Pobre de quem não tem um criado-mudo,
pois eu me pergunto:
 
Onde irão ser fielmente guardados os retratos
da sua vida?

Embaixo da cama, detrás de uma cômoda?
Não.... só os criados-mudos têm a polidez
necessária para avolumar seus pertences materiais
ou afetivos.

Anita Campos


 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TALVEZ UMA VERDADE

O relógio está em cima da mesa.
Tudo em perfeita ordem, aparente harmonia.
O relógio dita como tudo deve proceder.
O acordar, o fazer, o ir dormir.
Ele não atrasa; nós é que nos nos atrasamos para a vida.

Da minha visão retinal, enxergo o mundo tresloucado lá fora.
As pessoas algo fora de si, sem nem se dar conta disso.
Presas na incapacidade de buscar alternativas.
E assim segue o rebanho humano para as cancelas onde todos são ninguém e ninguém são todos.

Os caminhos escolhidos não deveriam ser tão premeditados.
Pois há que haver espaço para as loucuras inconstantes, os arrebatamentos de espírito
e o fogo louco que incendeia e dá combustão às nossas vidas.
O sangue tem de correr quente e resoluto em nossas veias.
 
As escolhas que chancelamos, produtos das vontades reais ou impostas,
deveriam antes de tudo abrir um ousado e irrestrito leque de opções
para os deveres, os direitos e sobretudo os sonhos.
Pois sem dormir nossos neurônios pifam, esgotados e exaustos.
E sem sonhar nossas vidas são simplesmente tão pífias.
 
Os conselhos que darei pra minhas filhas: ousem; sonhem;
não se perfilem atrás da fila do gado humano.
Permitam-se divergir e divagar com um olhar
contemplativo, questionador e na maior parte possível das vezes,
evitem o reduto das razões congeladas.
 
Pois o que soterra o homem é não se deixar abrir o espírito,
a mente e o coração.

Anita Campos

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O REAL

Encanta-me esta arte precisa que
transcende o mundo distante
o mundo ausente
o mundo que não mais há
nem em Romeu ou Julieta.
O mundo e seus personagens
pintados em sua frugalidade
e alcançáveis a um metro da mão.
Estão ali!
Ainda são vivos nestas fotografias.
A moça ainda toca o virginal,
a senhora me lê a sua carta
a menina me encara nos olhos
e as demais tornam belas suas rendas.
Vejo através desta janela não somente uma ruela,
mas toda Holanda, rica e acesa.
Alguns séculos nos separam,
mas tão reais são no meu imaginário
que simplesmente ainda aqui converso,
com a moça sentada à mesa.

Anita Campos




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CATARINA

Que tens, moça com brinco de pérola?
Que escondes neste teu olhar?
Tristeza? Melancolia?
Aflição? Agonia?
Que há de segredo, de medo?
Que mistério tens a revelar,
ou dor a abrandar?
Ou neste sorriso oculto
guardas discreta alegria?
Uma inocente apatia
ou algo a dissimular?
Que nome deveria eu te dar?
Dou-te um nome, moça inquisidora,
e dá-me em troca o teu segredo,
a força que te faz tão inquietantemente bela,
registradas nestas tintas duradouras.
   


Anita Campos