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segunda-feira, 26 de março de 2012

SEM ASAS



Saiam minhas asas; quero ficar estática.
Parada em algum prazo perdido do tempo.
Minhas penas sucumbiram; sinto-me exausta.
Sem pelagem e exposta ao vento que urge sua passagem,
tudo é frio e desamparo.
Tudo é desassossego.
Sempre busquei o invólucro macio que
me amenizaria a vida.
A consciente e inconsciente tentativa de
proteger-se contra os impactos,
safar-se das dores e dos desconfortos.
Mas, se eu mesma não retiro minhas asas,
elas próprias acabam sendo arrancadas, de alguma forma.
E mais uma vez retorno ao tempo perdido entre os segundos,
aquele que não contamos por ser depressa demais,
e que por não ser percebido nos torna inertes e esquecidos.
 
AC


sábado, 10 de março de 2012

APOSTA

 

Cavalos ouriços, cavalos marinhos, cavalos alados,
em seu galope crescente, surgem como a lua,
brancos, amarelos, acinzentados e também negros,
com o vento que serpenteia suas crinas,
com a poeira sob o chão que se agita,
nessa corrida frenética e adoidada em que
rumam para o território irrestrito de suas liberdades.

Como é bom ser livre assim!

sábado, 3 de março de 2012

07 ANOS

Sete com sete são catorze,
e com mais sete, vinte-e-um.
Tens para mim as sete vidas de um gato.
E o mundo se descortina aos teus olhos
de encanto.
Não tens mais seis; agora já são sete.
E como és tão sensível, vais tão longe
onde a vista não alcança.
Te dei uma vida, minha proeza, minha criança.
E pintaste os sete com as cores da alegria.
Tuas fadinhas já se recolhem a um canto,
pois quando se tem sete, fadas já existem menos.
É mesmo do sete perder um pouco a inocência.
Mas os teus sete são pra mim felicidade, pois,
não vou prender-te ao que é da vida prosseguir.
Em breve terás catorze, vinte, vinte e um...
Estarei aqui tanto quanto eu puder,
vendo-te crescer, doce menina, linda mulher.

AC


ABANDONO



Estou tão dividida:
entre amar a mim ou a outrem.
Pois não sei se há sentimento para ambos.
E sou assim.
Caminho o tortuoso rio
onde em uma margem,
há os meus desejos
e do outro lado,
os não alcançáveis.
Na ilusão pueril da minha infância
pintei um retrato que não tive:
um pai presente.
E depois desfiz-me da imagem
quando em mim pouco restava de inocente.
Desde então, não pinto mais retratos;
tiro fotos, instantâneas, dos momentos.
Neste rio onde trafego, tenho dois remos.
Ou muitas vezes, jogo-me ao frio,
sem este barco,
braços semi-afogados
quase a alcançar a outra margem tão longínqua;
Nesta viagem em que se investe a própria vida,
entre as braçadas, vou fechando as feridas.
É da vida se ferir e seguir adiante.
E nesta outra margem, tão difícil e tão distante,
vou consumindo meus sentimentos aos alheios.
Me dividi: não quero mais nadar à sorte dos sorteios.
 
AC

DEFERIMENTOS


Eu desejo não somente o teu amor.
Desejo um pouco da tua ira!
Desejo a contramão enviesada,
teu lado louco e um pouco insano.
Mas não quero dor; quero os beijos
da feliz felicidade, fácil e inocente.
Desejo a tua luxúria e a paz
dos sentimentos.
Pois sentir-me assim, é mais que desejada;
é compreendida e amansada,
faz-me dócil para estar na vida mais contente.
Vem como uma onda; me abarca, me margeia,
me espraia.
Arrasta-me pra dentro de ti, todo persuasão
e redemoinho.
Pois o que é a vida senão este girar,
e ao girar os lados mudam a todo momento.
Traz-me o mel, traz-me a fruta e também o vinho.
Traz-me os vícios bons, e ao oferecer-me tanto
estarei- talvez- rendida,
presa mansa em tua cama nua,
deliberadamente inteira,
completamente tua.
 

AC

sexta-feira, 2 de março de 2012

EXORCISMOS



Não me peça o que não posso: mudar-me toda
Pois de mim então não queres nada
Não sou a personagem que se transmuta
Sou soma de fatores, um pouco em cada.

Não tente encarnar-me em outra vida
Pois essa é muito do que tenho a oferecer
Se posso ir além, vou, mas há o ponto
Em que ir além demais é retroceder

Pois se deste meu presente o passado conta
Dele não posso apagar todas as memórias
As rugas alcançadas em corpo e alma
e caminhos que marcaram a trajetória

Então, o que combino, e dou palavra
É a difícil arte: zelar paciência
É conciliação que não me anule
Exorcizei minhas culpas, mas não minha essência!



AC