Leia! Há de ter a sensibilidade necessária e talvez até paciência para entender as linhas ou as entrelinhas. Há de ser puro de coração, para permitir que a poesia ou o texto o invada. Tal qual um aroma, você pode senti-lo, sorvê-lo, inundar-se, e pode até tocar as palavras, seduzindo-se pelas infinitas possibilidades de interpretações e beleza. Quisera todos tivessem a mente aberta e o espírito livre para isso!
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sexta-feira, 31 de agosto de 2012
ETERNO
Ainda te carrego dentro de mim,
tua alma possuída em minha sede.
Teu jeito de infância
não compartilhada.
Meu crescer longe de ti.
Minha maturidade atrás
do querer não consumado.
E assim acostumo a tocar a vida
avante, levando nas lembranças
teu jeito de menino obediente.
Tua docilidade e quiçá tuas estranhezas.
Este sorriso tão aberto, tão gentil;
o cheiro não compartilhado.
O tempo é longo, a vida é curta,
em percurso meu caminho a ti
é tão distante.
Sinto que talvez nunca chegarei lá.
Ainda te carrego dentro de mim,
minha alma em teu ser aprisionada.
AC
terça-feira, 28 de agosto de 2012
ATLÂNTICO
Banhei-me nas águas verdes deste longo
Atlântico.
Longe de mim, teu cheiro dissidente.No oceano desagregador, ainda assim senti:
teus beijos salgados,
meu corpo sobre o teu,
percebendo-te ora manso, voraz, onipotente.
AC
TODAVIA
Eu não o vi quando você estava ali.
Passei ao largo, ao longe.No destino bifurcado,meu caminho estava
na outra tangente.
Não me remeti ao que você poderia desejar.
Tantos desejos são tão sufocados,
prisioneiros da ilha deserta de sentimentos
não esgotados.
Não percebi a sua presença ou ausência.
Andava apressada correndo atrás do caminho.
Em passos inquietos, ora felizes, ora sozinhos.
Era difícil lhe enxergar mesmo sob o céu
de azul castiço ou de chumbo bruto.
E em meio às tantas horas amargas, de luto;
continuei prosseguindo,
até alcançar horas de simples desarmamento.
Eu não quis me entregar na hora certa.
As entregas não têm horas marcadas,
e os seus remetentes não premeditam
no ato da doação o melhor momento.
Deliberadamente, não fiz, não quis,
não vislumbrei e não desejei.
Criei visões de paraíso onde você não estava,
mas também não lhe reservei lugar na
cadeira em que Dante sentou.
Andei em praias de areais tão secas e quentes,
que em meus pés bolhas formaram.
Não lamento, lágrimas secam, e secaram.
No entorno desta vida, bem vivida, mal vivida,
não me vejo apta a dar ou digna em pedir desculpas.
Desculpar-se é quase matar-se em vida.
AC
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
SAMUEL
presença secundária em minha vida.
Decerto,
não é certo ter sido privada da sua convivência.
Tenho um receio enrustido em agradá-lo,
em ser-lhe neta digna.
Já vi em fotos estes olhos enegrecidos,
sempre em semblante triste,
angustiado.
Que homem terá sido?
Que silêncio é esse que percebo em sua alma?
Teve filhos bons, caráter bom, trabalho forte.
Mas não vejo, em suas fotos,
felicidade.
Talvez pertença a um mundo em que a felicidade
não era algo a ser revelado.
As fotos antigas sempre têm esta aura de rigidez;
não se havia aprendido ainda a sorrir para as lentes!
O que alimentava sua paixão,
homem correto, homem decente,
mas homem feliz?!
Temo pela sua preocupada
existência em vida.
Queria poder ter-lhe feito abrir ruidosamente
os braços, gritar desesperadamente,
expandir os espaços enclausurados dos seus pulmões,
em eterna crise de asma.
Tive seu toque em meu corpo, eu bem sei.
Que terá visto nesta criança?
Que terá sentido por sua neta?
Como é possível sermos tão próximos
e estarmos tão longe?
Irônica vida, pois sempre sinto você em mim!
AC
BELA ROSA
Tenho esta rosa, muito bela, em meu jardim.
Filha de ricas famílias aristocráticas,rosa de sangue azul.
Elegante, ela se inclina em seu caule sinuoso,
declinando aromas em formas de versos,
pétalas voltadas para o sol ou para a chuva.
Sustentam-se em seu tronco estreito, magro,
espinhos indomáveis e destemidos,
nascida que foi com a munição contra
os aparatos destrutivos da vida.
Esta rosa adornada com o mistério dos cheiros,
com a elegância dos fortes,
está sempre perfeita, aparentemente
quieta no alto da sua cabeleira ruiva.
Não lhe tolhem os sentimentos rasteiros,
tão alta encontra-se no pé do roseiral.
Vive no palácio das coisas bonitas,
poéticas, garridas.
Empertigada para o alto, alguns a
desdenhariam por achá-la orgulhosa.
Mas ela não o é, e sua soberba
reflete a beleza inerente
de sua corola fulgurante e radiosa,
escarlate e abrasadora.
Bela rosa, todos os dias a contemplo no meu jardim
e penso, o que irá em seus pensamentos,
para quem guarda esta volúpia incandescente,
flor divina, divina rosa,
estátua perfeita esculpida pela natureza
que à noite passeia pelo meu jardim assombrosa,
musa do amor e das paixões.
AC
sábado, 18 de agosto de 2012
CANDURA
Fiz-lhe uma canção de ninar,
que era o sussurro do ínicio dos tempos.
Dentre os rufores abafados, o que se ouvia
eram os contratempos do meu coração.
O som da minha voz era canto de
sereia,que era o sussurro do ínicio dos tempos.
Dentre os rufores abafados, o que se ouvia
eram os contratempos do meu coração.
melancólica e perigosamente atrativa.
Som agudo-doce-soprano,
destes de quebrar cristais,
gelo e até mesmo diamantes brutos.
Mas não alcancei o âmago da minha alma.
Nem quando lhe dei as cores de Matisse,
a lucidez louca de Picasso,
os sonhos assombrosos de Chagall.
Então verti-lhe palavras líricas,
redemoinho de rimas e contra-rimas,
alinhavos de ricas menções, poesias,
contos antigos e secretamente guardados.
Contei-lhe sobre as histórias dos homens,
a fragilidade bélica inerente aos seus rompantes
de conquistador.
(Poupei-lhe as partes sangrentas).
Trouxe-lhe todos os cheiros que jamais existiram,
retidos nas flores do meu jardim.
Ainda assim não cheguei à magia
doce que meus sentimentos albergam.
(Não compus os versos perfeitos
que tanto queria lhe dar!)
Pensei em dar-lhe o tempo,
mas não consegui encontrá-lo,
apressado em seus compromissos.
Assim andei pela rua,
procurando nas gentes, nas agitações,
esta agitação minha dormente,
esta eclosão dos cinco sentidos
à flor da pele-boca-ouvido,
e despi-me e lhe doei o corpo nú,
envergonhado mas sim, eloquente.
E tudo, tudo o que quis lhe dar
durante toda esta poesia,
foi a candura doce, serena, ímpar,
satisfeita e aquietada na perfeita
profusão dos sentimentos comungados.
AC
sábado, 4 de agosto de 2012
ESCONDE ESCONDE
No fim da rua,
a enigmática lua.
Atrás da curva,
a titubeante tartaruga.
No início da estrada
o bumba-meu-boi e a boiada.
Ali na esquina,
o choro manhoso da menina.
Embaixo da ponte,
bebe a água um elefante.
Bem no meio do jardim,
o arco-íris sem fim.
Em cima da janela,
o gato de pestanas amarelas.
No alto do edifício,
explosão de fogos de artifício.
No centro do mundo
tudo que há de mais profundo.
Lá em cima na nuvem
a águia esconde sua penugem.
E onde só há gelo
o pinguim olha sua cria com zelo.
Na breve alvorada,
passarada;
No meio do arvoredo,
passaredo;
E no fim do caminho?
Passarinho.
AC
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
APELES
Em homenagem à poeta Florbela Espanca
Ai que em tanto em ti me reflito!
Desde o primeiro dia em que a li...que lindo!
Rendi-me ao teu caldeirão de sentimentos,
aos teus tormentos tão revividos,
tuas mágoas apaixonadas.
Amastes tanto, e a todos e cada um,
em todas as horas e em cada momento,
mergulhando no turbilhão fragilizado
dos teus afetos afora.
E viajastes pelo universo da tua agonia,
alcançando cometas, mantos solares,
estrelas em cadência de versos,
planetas e vícios lunares.
Ai que em ti tanto me sinto!
Quando pressinto nas palavras esta demência
eloquente!
Quando os versos me cegam, tal qual
paixão inconsequente!
E as horas contém medos virginais,
e os medos, amores em tudo o que se sente!
Pelos tantos amores vividos ou não... prosastes...
Pelo irmão prematuramente partido... chorastes...
Tu, flor do meu jardim,
fragilmente retirada
antes do teu completo desabrochar,
em tua rápida existência preenchida com
o amor dos loucos e dos insensatos,
o amor de poucos e dos fanáticos,
doou-se tão por completo que é isso
que a minha alma aclama:
O teu viver fantástico!
AC

Desde o primeiro dia em que a li...que lindo!
Rendi-me ao teu caldeirão de sentimentos,
aos teus tormentos tão revividos,
tuas mágoas apaixonadas.
Amastes tanto, e a todos e cada um,
em todas as horas e em cada momento,
mergulhando no turbilhão fragilizado
dos teus afetos afora.
E viajastes pelo universo da tua agonia,
alcançando cometas, mantos solares,
estrelas em cadência de versos,
planetas e vícios lunares.
Ai que em ti tanto me sinto!
Quando pressinto nas palavras esta demência
eloquente!
Quando os versos me cegam, tal qual
paixão inconsequente!
E as horas contém medos virginais,
e os medos, amores em tudo o que se sente!
Pelos tantos amores vividos ou não... prosastes...
Pelo irmão prematuramente partido... chorastes...
Tu, flor do meu jardim,
fragilmente retirada
antes do teu completo desabrochar,
em tua rápida existência preenchida com
o amor dos loucos e dos insensatos,
o amor de poucos e dos fanáticos,
doou-se tão por completo que é isso
que a minha alma aclama:
O teu viver fantástico!
AC

ESPÍRITO BRILHANTE
(para Humberto)
Eu, que em nada confio,
confiaria cegamente em ti.
Em teu amor dourado,
sol quente em meus instintos
afobados.
Cercaria-me com teus carinhos,
manto de veludo caro,
abarcando-me como um passarinho
frágil, delicado.
Daria-me o amor antigo,
tão rendido em sua inocência
que poderia ser até pueril,
se assim entendido.
Colocaria meus olhos de brilhante,
despindo a pele da minha alma
entregando-a inteira, viçosa,
rica flor em teu semblante.
Em meu peito, avolumado,
choraria a dor dos passarinhos,
esperando quietos em seus ninhos
a contemplação faminta do cio.
Aguardaria teu beijo carnal,
teu espírito brilhante,
a voz familiar de quem me remeteria
ao círculo do amigo e do amante.
Eu, para quem não é fácil confiar,
confiaria na ternura de quem, como eu,
vasculha o mundo, tem asas livres,
quer amar e ser amado
e deixar algum legado
à tudo que nos precedeu.
AC
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