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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PEQUENO POEMA

De que és feito,
pequeno poema encantado?
De tanto significado ?
De poucas e breves palavras?
Mas imensamente belo!
Tua cor, meu doce poema
é a do sol, alegre amarelo;
teu cheiro é o da bela rosa;
olor doce singelo.
Tens maciez e é a do pêssego.
E falas das coisas do âmago
em poucas palavras afônicas,
atônitas, lânguidas e harmônicas.

Poema, na manhã ensolarada
tu me dás um pouco do sol!

AC

AMARELINHA


Minha doce brincadeira,
piões no meu mundo imaginário
a rodar, rodar, rodar.

Meu deleite de frugais horas,
passatempo e faz-de-conta
a brincar, brincar, brincar.

Borboletas repousam em ideias
ternas, encantadas e eternas
a bailar, bailar, bailar.

É tempo de artes e artesanal ventura,
temperadas de mel, melaço e candura,
na noite a brilhar, brilhar, brilhar.

É tempo de delicadas brincadeiras,
imagens de uma mundo antigo e perdido,
sozinho, à espreita, a resgatar.

AC 

FLAMENCOS


Vou abrir-te o espírito com meu cântico de rebeldia.
Com meus portes viris e sapateados mágicos
que retumbam pelo chão de alforrias.
Pois meu espírito é livre!
Sou também cigano e conto minhas dores nas cantorias.
Meu sangue sobe pelas mãos voluptuosas que serpenteiam e enroscam-se
em redemoinhos giratórios.
Tenho capa invisível de toureiro
e babados em saias de rodopios aleatórios.
Movo-me trágico, forte
e também guerreiro, nobre,
pois sou um cavalo árabe de porte!
Chorem tuas saias, mulheres mouriscas,
requebrem teus quadris fortes
pois tuas belezas ofuscarão o sol,
e em teu peito altivo está a nossa identidade!
Brada alto, ola!
Cresce em teu ritmo nômade 
mas sem fugir do teu destino.
Em nossas mãos estão o sangue, o clamor
imponente das temperanças agitadas.
Pois eu sou a própria união e unidade,
que luta e chora
no doce martírio das castanholas fatigadas.

AC



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TERRA DOS MAUS MODOS

            (homenagem ao Congresso Brasileiro)

No coração desta terra mora a Calamidade.
Mora o Descaso maldito.
Nas nossas ruas com buracos,
nas nossas escolas sem verbos,
na nossas verbas esquivas.
Aqui mora o Desvio.
A Má Conduta, a Falta de Princípio.
Nosso endereço é a Má Fé.
Que medo que tenho de quem somos!
Da nossa natureza impura;
(desculpe-me palavra tão dura)
Mas somos imundos tal qual porcos
- não querendo falar mal dos porcos!
E nos besuntamos de lama,
no conchavo desta conduta,
na esperteza astuta,
na impunidade imputa.
De cima pra baixo, de baixo par cima,
muito pouco é o que nos rende.
Aqui, olhamos os fatos
mudos e assustados.
Ou talvez coniventes,
perigosamente calados.
Aqui é a Parada do Inferno.
E viva as nossas Bananas
e a Chiquita Bacana!

AC

NÃO SEI


É esta inocência lânguida dos teus braços que procuro.
Mas que ilusão infantil a minha!
Os amores se dissolvem em água gelada,
perdendo com o tempo todo o seu vapor.
Mas queria encontrar a alegria de um sorriso.
O aquecer sincero de boas palavras.
Queria viver sem esta ausência de presença.
Tão repleta de incoerência.

Nem sei mais o quero, neste escuro.
Nem há mesmo uma tristeza que me espezinha.
Há somente um desejar não me sentir abandonada
é por isso que ainda espero o amor;
Uma grande paixão nem seria preciso,
somente o aquecer sincero de doces alvoradas.
Não quero o amor frio que é quase uma ofensa.
Tão cheio de indiferença.
 
AC

A BRINCADEIRA DAS PALAVRAS

Arrumei as cadeiras,
vai começar a brincadeira.
Sinônimos dão as mãos,
antônimos em oposição.
Artigos antecipam-se
aos sujeitos e seus adjetivos.
Os predicados vão para
o final.
Os verbos em conjugação
intercalam-se entre todos.
Advérbios de lugar
reinvidicam suas posições.
Minha nossa, quanta confusão!
Os acentos histéricos, agudos;
os circunflexos, perplexos;
entram em cena mil exclamações!
As vírgulas não se posicionam,
os pontos não querem dar seguimento.
Deus, quanto lamento!
Desisto da brincadeira
pois as palavras querem é circo!
E vou é ler um bom livro!

AC

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ESTAÇÕES

Ainda aguardo o último suspiro,
aindo invejo o teu romance.
Queria ser a ponte
entre o passado e o presente.
Ainda sinto um breve queimar
e sim, como me sinto só.
Apesar desta poesia,
apesar da música doce.
Apesar de voz doce
desta doce melodia.
Ainda tenho maus presságios
e ainda assim encontro-me serena.
Ainda não sei bem ao certo
o que tenho por querer ou esperar.
Sei da brisa amena
e sei do sol quente da primavera
que queima sem abrasar.
Ainda penso em você.
Ainda espero reencontrá-la.
Ainda guardo o meu velho caderno
de folhas sujas, tímidas e escondidas.
Ainda sonho com o que
nem bem sei o que.
Ainda espero, ainda aguardo.
Ainda aguardo por mim mesma.
Sei das flores que desabrocham
suas belezas tão corretas.
Sei do tempo que passa
na minha cabeça.
Conto as horas, conto o tempo,
espero o tempo.
É isso.
Simplesmente espero.

AC

CRÔNICA DA FELICIDADE

     Se algo na vida é relativo, certamente é a felicidade. Tem gente que é feliz mostrando o derriérre na TV- eu acho isso deprimente. Tem gente que é muito feliz torcendo para um time- eu não torço pra coisa nenhuma. Tem gente que encontra muita felicidade em sua fé- baita inveja disso.
     Ser feliz é muito difícil, estar feliz é mais fácil. Quando pensamos nos dramas da humanidade, não podemos deixar, ou nos permitir, de não nos sentirmos felizes. Mas sabemos que só isso não basta. O infortúnio alheio não aumenta objetivamente o nosso grau de felicidade.
     Passamos a vida temendo viver sozinhos, e ainda assim não somos felizes quando temos um parceiro. Filhos, acho-os muitíssimos importantes- para aqueles que não os teve, não adianta falar nada. Porque filho é sentir. Desde aquele amor imensurável, até aquela preocupação e aporrinhação que só eles sabem nos dar durante o resto de nossas vidas. Falar em ter ou não ter filhos é tão inútil quanto falar em mostrar a bunda, torcer pro Bahia ou ter fé em Deus- só que os têm e se sentem felizes sabem o que significa.
     Empurrar a felicidade para amanhã é de uma burrice tremenda. Nunca seremos ao certo felizes amanhã. Mais prático é aceitar e encontrar prazer em pequenas coisas diárias- ler uma revista, ver aquele filme legal, viajar, assistir à apresentação da peça do seu filho, vê-lo crescer- excelente exercício de antropologia se passando diante de nossos olhos, sobretudo quando há irmãos que interagem. Pré-história ao vivo e on line, em 4D todo dia!
     A felicidade portanto, conceito tão abstrato, deveria ser substituído por alegria nas pequenas coisas, conceito aliás budista. Frustra menos. Viver é ter de lidar com responsabilidades, trabalhos, brigas, trânsito, dissintonias, contas a pagar, tudo conspirando contra a tal felicidade. Melhor que tentar não ser feliz, é tentar ao menos ser alegre. Afinal, passamos rápido por aqui e não há tempo pra perder com picuinhas.


AC

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O RETRATO DELA

Quando eu tiver
esta morenice,
estes seios fartos,
farei um lindo quadro.
Quando acarinhar
este cabelo longo
insondável e preto
tirarei retrato.
Quando eu afagar
esta boca rosa,
cálida e carnuda,
pintarei com tato.
Quando eu decifrar
a alma resoluta,
linda e feminina,
escreverei contrato.
Mas quando eu ousar
querer que a tua flor rósea
abra só pra mim;
a flor tão singela
deste teu jardim;
manda-me embora
que eu já quero muito.
Quero tanto assim
que não é só querer
é também assalto!

AC


DONA GIRAFA

A girafa
de pescoço grande
olha bem longe
e come bem alto
no topo das folhas.
Tão alto tão alto
que esbarra na nuvem
esbarra no pássaro
esbarra no avião
conversa com os anjos
vê a estratosfera
enxerga o satélite
vê o vermelho de Marte
e os anéis de Saturno
e acima a via Láctea
lhe abre o céu de estrelas
quase colide um cometa
e um asteróide anão
e segue peralta
ao limite do universo
onde não consegue ver mais nada.

E a girafa senta
e então descansa
a cabeça alta.

AC

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

BEIJO BREJEIRO

Sob o brilho da lua,
roubei-lhe o beijo.
Mas não um beijo qualquer.
Roubei o beijo dos ventos
e o beijo das manhãs,
fresco, azul e orvalhado.
Roubei o beijo das crianças
e o beijo dos velhinhos,
inocente, quente e adocicado.
Roubei o beijo dos docinhos,
das trufas e dos pães de mel,
sublime, macio e açucarado.
Roubei o beijo do infinito,
do fim dos mundo e dos tempos,
arisco, bendito e enamorado.


Sob os olhos do luar,
fiz-me inteiro neste beijo.
Coloquei em suas mãos
o meu amor verdadeiro,
meu sorriso cabreiro,
meu suspiro derradeiro.
Dá-me meu beijo de volta!
Brejeiro....


AC

CARTA CURTA AO REI


Se tú és majestade,
se tens sangue azul,
se tens muita vaidade,
mas teu corpo está nu,
só posso dizer-te,
em verdade, em verdade,
que debaixo destas capas
de ouro, brilho e quimeras,
quando não mais respirares,
serás como todos nós:
irás para debaixo da terra!
 
AC

PASSARINHO

O passarinho sibila
notas ressonantes de amor.
Sibila beija-flor
sibila cotovia
sibila sabiá
que ninguém mais sabia
que nas notas sibilantes
o amor lindo jazia!

O passarinho assovia
finos gritos de alegria.
Assovia andorinha
Assovia canarinho
Assovia curió
que ninguém mais entendia
que nas notas retumbantes
o amor se oferecia!

AC

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DOR

Para onde vão as crianças,
ceifadas precocemente?
Viram flor em jardins encantados?
Viram raios de sol ou semente?
Viram lindas princesas valentes,
cavaleiros de coragem ardente?
Das mães, já tanto falaram,
mas dos filhos, que a vida nos tira?
Oh dor inconcebível,
terrível, temível e atroz!
Nesta tristeza tão sentida,
prefiro acreditar iludida
que os filhos jamais se vão!
Viram arcanjos, anjos, duendes,
fadinhas, estrelas cadentes;
acham a chave de ouro
e o pote de tesouro,
dentro do coração da gente!

AC

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ENXAQUECA

A chuva que cai aqui dentro é intensa.
E os raios e relâmpagos prenunciam muitos trovões.
O ressoar dos seus barulhos é estrondosamente forte,
e a tormenta não parece querer sucumbir.
Tal qual um relógio que badala às 12 horas,
a  vibração faz tremer paredes e tetos,
tinindo e vociferando em altas frequências de dor,
bradando seus martelos de finas sintonias.
Há um suor frio que desce pela nuca,
e um nausear amargo, barco tragado em alto mar.
Há uma procura pelo que é silente e escuro,
para onde se possa fugir dos gritos abusivos,
dos finos berros que tilintam
e dos tambores que rufam aos quatros cantos.
Os olhos ainda estão doloridos.
Neste caos alucinado de algia e drama,
a comédia da dor teima mesmo em ceder.
É  preciso paciência para a desordem avessa,
é preciso tolerância para a trama travessa
- delírio que atravessa horas imensas.
Dentro da minha cabeça.
 
AC



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CERCADO-MUNDO

À medida que envelheço menos entendo as coisas.
Tento decifrar as pessoas como se fossem esfinges
pois como são difíceis!
Criaturas abstraídas em seus mundos,
vivendo dentro dos seus criados-mudos.
E cercados somos por toda ordem de coisas inconsistentes,
inconcebíveis e incongruentes.
O homem me amedronta mas me compadece em seu lado belo,
pois é Davi e o diabo, coexistindo em paralelo.
Tal qual criança assustada, esta percepção me angustia,
e depuro os meus medos na pura prosa ou na poesia.

Na rosa da poesia, melindrosa poesia.

Escrever liberta os fantasmas que habitam o meu espírito,
é tal qual uma fé que me enriquece,
restabelece meu equilíbrio.
A descrença das coisas, das gentes, é a companheira do meu martírio.
Inquieta-me o infortúnio alheio
mas reservo distância do desconhecido.
Percebo que ao ficar velha, vou assim ficando criança,
pois os porquês ainda atormentam, tal qual as questões sem sentido.
Entendo que não há o que entender,
que criamos mentiras, loucuras e sagas,
ceifando nossa vitalidade dentro das nossas próprias armadilhas.

A desilusão dos que não crêem é a abnegação ante o não compreendido.

A esfinge me contempla além, em meu cercado-mundo escondido.


AC

terça-feira, 18 de outubro de 2011

YERUSHALAYIM


Filhos da minha terra,
filhos por quem já chorei,
alguns partiram esquecidos,
outros ficaram além.
Partilha de todos os muros,
sou filha de Deus, a escolhida,
sou terra de soturnos contos,
sou eu, filha prometida.
Lamentos e crenças antigas,
por mim já vieram e passaram,
e todos que aqui estiveram,
em tudo me acreditaram.
A mim vieram os povos
antigos, de terras distantes,
reis, magos, crianças divinas,
beberam todos da minha fonte.
Davi, Salomão e suas crias,
escravos brutos e famélicos,
imperadores de longínquos reinos,
cruzados e cavalos bélicos.
Por aqui lavaram seus corpos,
com mel, água benta ou sangue.
Por aqui purificaram seus mortos,
suas almas, seus medos estanques.
Ó Filho da mais alta estirpe,
em mim, foste crucificado.
Ó Profeta de tempos antigos,
estiveste em meus templos sagrados.
Sou filha de tudo e de todos,
sou pura e desnuda em paixões,
em mim derramam suas iras,
derramam suas lamentações.
Sou terra bela e bonita,
matriz deste mundo a girar,
sou a estrela na noite perdida,
silente no que tenho a ocultar.
Em mim já pressenti horrores,
testemunhos da loucura humana.
Por mim clamam ainda amores,
discórdias, disputas insanas.
Inimigos da minha terra,
sou a síntese de tudo.
Sou o apego, o afago, o medo,
a manhã, a tarde, o crepúsculo.

AC