Total de visualizações de página

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

ANGELA

                          ("Mais que tudo,  me busco no meu grande vazio. ")


Quem sou eu, moça de invernos abissais.

Verdades difíceis, dores de vastos contornos, 

olhos de uma secura vazia?

Criada como um personagem que se arrasta

no tempo que não permanece, 

no espaço que não há. 

Quem sou eu, que tenho de muito ou tão pouco,

nas nesgas de horas que se pressente em vida,

num deslocamento vazio de mesas, cadeiras, 

sons e entercalços.

Sou tanto e sou tão nada,  nem desejo o ser-o

existir -o estar -o perpassar.

Quem sou eu que não me perdoo de minhas tolas

indistinções?

Eu sou o ausente que não fala,

o silêncio que não escuta,

a mudez que não quer enxergar.

Sou confusão de sentidos e 

sentimentos,  e

ainda querendo a eternidade da inexistência, 

persisto como chama vazia, 

como dor murcha,

aquietada em algum canto de melancolias.


AC





sábado, 15 de outubro de 2022

PLANOS


É tanto tempo 

Que tanto cansa

Tão desatento

Sem esperança 

Tanto me alenta

Quanto descansa

Sem teto abriga

Desgorvenança

Desordenado 

E sem aliança

Tão comedido 

E sem confiança 

De longe ruge

De perto amansa!



AC


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CICLOS


É tempo,  agora,

de reciclar a dor.

Fazê-la andar em círculos,

circuitos desalinhados. 

É tempo,  agora,

de expiar as culpas

(Ou as desculpas não ditas,

encalhadas fundo na alma).

É tempo, então,

de ser sorrateiro e vago,

ausente de alguma esperança.

Pés recuados no chão frio,

amor que não mais me alcança. 


AC

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

ADMIRÁVEL

 

Do nada-ausência de amor, 

Do nada- onde mora a alegria,

Do nada- desesperança.

Das horas que não são macias,

da tristeza que a tudo invade

nas horas rasteiras da tarde.

Da dor que geme sozinha,

sempre presente na alma,

na cama, no teto, no porão.

No duro anteparo da queda,

o espanto se quebra no trauma

- mil pedaços de dor pelo chão!

Onde o ciclo nunca se fecha,

do contrário, se reinicia

numa interminável coação de morte.

Em golpes e na carne, mil cortes.

Pensamento jogado ao vazio,

imersão onde a voz não alcança.

E na vida, o ciclo, o mesmo fio:

do nada: ausência de amor

do nada: onde mora a alegria 

do nada: desesperança


AC




quarta-feira, 3 de agosto de 2022

CRISTAL


Partiu. 

Estilhaçou-se.

Pelo tiro fútil que levou sua eternidade. 


Como ficam os restos de quem fica?

Mãe,  pai, família. 

Quem junta os pedaços incrédulos da dor?

Nem Deus.


AC

segunda-feira, 30 de maio de 2022

O MEDO



Mora ali o meu medo. 

Na esquina de todas as ruas,

nos endereços múltiplos em que já vivi.


Na calada (surda) da noite,

quando acordo em espanto

pelos fantasmas que vêm me visitar.


Nos destinos inseguros

ou nos dias insatisfeitos,

surgem como palavras abafadas.


Numa repetição de crendices 

onde reside a desesperança,

mãe de todos os ceticismos.


Paira ali no ar, o medo,

como nuvem num céu muito azulado,

ou concha de mar partida.


Recolhida a um canto escuro,

a sorte se faz tão ausente,

nesse tolo acalanto repetitivo. 


AC



segunda-feira, 25 de abril de 2022

COLHE TUAS FLORES


Brinda teu dia, colhe tuas flores.


Procuro tua boca pra habitar meu beijo.

E visto teu sorriso, que cabe em mim perfeito.

Na escuridão que me puxa,

(como voraz maré)

para o influxo do meu corpo,

(que em ti pulsa)

bate no meu peito teu amor ritmado,

em rimas e camas que nos deitam exaustos.

Aqueço-me em teu colo, paraíso e refúgio,

me envolvendo num cobertor de abraços. 

Teus olhos me acalantam, tua sede me vicia. 

E no segundo congelado, berço de cálido desejo,

tua respiração repousa em mim,

quando teu toque me sentencia

a um bem querer sem fim.


AC


domingo, 17 de abril de 2022

CADEADO

 

Tece a cadeia da vida com

fios de encantamento, 

mas se da vida visamos louvores,

viver é um muito também 

sobre colher desapontamentos.


Nada é tão eterno que dure. 

Nem fases de pouca energia 

nem entregas arrebatadas de amores;

Dos altos e baixos de um dia, 

resgates o bom firmamento.


No horizonte ao longe, 

Na maré que chega aos teus pés,

nada é tão breve ou distante,

que não ofereça magia 

- ou que não teste a tua fé. 


Portanto viva-se o dia.

No resumo no qual ele se encerra:

- começo meio e fim,

na busca por tua alforria,

vinte e quatro horas de espera.


AC




terça-feira, 29 de março de 2022

DESEJOS


Fantasia para quem habita meus sonhos.

Floração para as meninas da minha árvore. 

Entardecer rosa para o olhar gentil.

Doce de leite para anjos quem vêm velar. 

Prosa prescrita para todos os médicos.

Gaiolas abertas para passarinhos breves.

Andar sem precipício para felinos destemidos.

Sete vidas para quem gosta do mar. 

Raios de luz para caleidoscópios ambulantes. 

Números fracionados para matemáticas imprecisas.

Brisa de sal marinho para curar asma.

Final de mês para o excesso de ansiedade.


E palavras para a vida,  arte e pensamentos.


AC




domingo, 27 de março de 2022

PASSARINHO


Tu caíste em meu colo, como se fosse sorte,

passarinho macio, com asas em liberdade. 

O destino é doce, como é doçura qualquer amor.

Já te quebraste algumas vezes

em vários corações partidos por 

ventos desolasores de desencantamento.

E se dá vida já vimos a parte crua,

minha paz agora se completa na sua;

Tu caíste em meu colo, e minhas mãos 

viram-se cheias de súbito aconchego.

E eu te recolhi em um beijo, em segredo, aqui,

na gaiola da minha alma.


AC




sexta-feira, 18 de março de 2022

AZUIS

              "... sou teu e te devo por essa riqueza"


Eu  mergulho nos teus olhos

como quem invade uma perenidade 

de cores,  sonhos, melodias, abstrações.


De enlevos tão encantadores, que habitam

meus arquétipos mais apaixonados.


Você, floração da minha árvore,

azul perfeito que pinta céu e oceano

de um tom inesquecível.


Não somente o desejo descansa

no teu beijo venturoso,

como se recolhe quando a tarde vai embora,

guardando-se para explodir em teu colo de amor.


Precipito no oceano da minha fé, pois estás lá. 

Acordo em rezas de compromissos e querer bem.

Pretendo ficar. 


Quero ser, ter e estar nos teus abraços longos, 

doces ou avolumados,

onde o desejo não conhece trégua.


Tendo a sorte de seres o meu dia

- manhã,  tarde e noite-

és a imersão no infinito;

fascinação dos meus sentimentos,

rendidos, em paz, na doçura de sua alma.


AC







quarta-feira, 9 de março de 2022

PELE


Sim, eu amo esses teus olhos cheios

E o cheiro que emana tanto desejo

E a boca em que minha língua faz carícia.


Risos e rimas que não oferecem riscos.


E suas pernas avolumadas ao meu redor

Em um corpo que da minha alma não se dissocia

E as mãos divinas e de um toque maior


A sombra próxima que já se avizinha. 


E tua voz rouca a soletrar paraísos

Em respiração ora calma ora ofegante

E tua alma a me oferecer sorrisos


A pele em sede a encostar na minha.


AC


segunda-feira, 7 de março de 2022

SONETO DO HOSPÍCIO


Nas guerras e nas loucuras eu vos descubro

Mundo de loucos,  alguns bravos e mártires 

Heróis insanos cobertos de sangue rubro

Que tanto chegam quanto depois partem


Na cadeia da guerra elos se quebram

Sendo conflito humano o cadeado atroz

Dessa vergonha é tanta dor que geram 

Que morte e genocídio é verdadeiro algoz


Não sei que planos há nesse vão hospício 

Coberto de chamas,  mal e desespero 

Onde do amor não se revela nem resquício


Na dor solene enviada pelo morteiro

Que não abriga qualquer armistício 

No mal do homem a cultuar destempero. 


AC




quinta-feira, 3 de março de 2022

ELA QUE É

                  (Para Alê Cerqueira)


Cerco-me de amor,

E do azul transbordante do céu. 

Desejo os excessos desnecessários

pontualmente. 


Quero o bom dia tardio

E o desejo de só ali permanecer,

tempo congelado no instante em que sou mais feliz.


Sendo empatia, sou a chama que aquece

coração,  alma, pensamentos e atitudes. 


Como o rio de águas aquecidas,

mero transbordamento de força,

sou leoa em disparada,

natureza em meu ciclo.


Sou os filhos amados,

camaleoa de relicários infinitos.

Sou paixão desejando brisa,

fogo vertendo fascínio. 


Sou maré alta, resoluta e determinada.

E não tenho medos pueris,

Enfrento minhas ondas e meus percalços.


E tenho ambiguidades:

Ferro que não foge ao seu destino,

carcaça sob a qual a bondade é imperativa.


Sou uma fortaleza cercada de coisas:

inclusive de fragilidades tão humanas

Quero a chuva que transborda e o sol que acaricia.


E sendo tanto, vou seguindo sendo,

procurando,  amando, sem medo, absolutamente:

a vida.


AC





quarta-feira, 2 de março de 2022

GUERRA MÁ


Não existe guerra certa

Não existe guerra boa

Toda guerra é meramente triste


Não existe guerra forte

Não existe guerra santa

Toda guerra é meramente só


Não existe guerra fria 

Não existe guerra quente 

Toda guerra é meramente má


Tudo é morte, fogo e pó. 


AC


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

O IRMÃO


                            (para meu irmão)


Quem serei eu de mim,

se me faltar você?

Quero alegria em seus olhos,

bênçãos em seus dias, 

chuva pra molhar, semente pra florir 

de tudo: amor, paz e sentimentos. 

Ar puro em seus pulmões,

medos aplacados e doçura.

Pedras pra sedimentar sua força,

força pra sedimentar seu espírito. 

Estou aqui, a lhe rondar como um anjo.

Guardar suas dores num pote de esconderijo

e simplesmente jogá-lo no mar

onde se afogam as tristezas.

Acorda e vem desfrutar!

Somente.


AC






segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

NA IMENSIDÃO

Nessa boca, um sorriso cálido. 

Um beijo displicente,

um canto espraiado

Na imensidão da gente. 


Nesses olhos, o mel de cor imprecisa

Um olhar tão renitente,

visão de anteparo, 

Na imensidão da gente. 


Nessa pele, o cheiro derretido 

O toque tão suave,

amor comprometido

Na imensidão que invade.


Nesse abraço, o tempo tão perdido 

Os dias tão macios

Sabor do paraíso, 

Na imensidão do ocaso.


AC




quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

MANHÃ

Me cubro de manhãs. 

Puxo o lençol rosa acetinado 

do céu purpúreo do amanhecer do dia. 

Nuvens - cirros e cúmulos- se espreguiçam 

pelo céu afora.

Chovem minúsculas gotas geladas 

repletas de água celestial.

O Universo se resume naquele momento, 

à todo alvorecer da Terra,

numa suspensão teimosa de outras existências.

E Deus se debruça sobre o vão desse infinito,

deslumbrado com sua própria criação. 

Trovões pequenos, minúsculos, 

raios infinitesimais,

ensaiam algum colorido eventual, 

pequenos vagalumes em espamos a brilhar

como lamparina.

E tudo é saboroso,  frio e adocicado.

Nesse raiar quase preguiçoso do sol,

a beleza que ofusca guarda igual simetria 

com o entardecimento das horas.

Como se fossem irmãos siameses,  isolados 

por alguma estranha magia,

no despertar e desligar do dia.


AC




domingo, 13 de fevereiro de 2022

SOU

 "Cá estou a escrever meus sentimentos,  pois nada sou além deles."


No amor, sofro vertigens,

Um pulsar quântico de alma,

Onde o coração se dilata,

Repleto de êxtases benditos 


Seus olhos me remetem ao caos

Aos desraciocínio; e seu corpo

Ao desrecato,

Eu desejo desertar para seus braços.


Vivo sob sua pele, 

Seu cheiro traz o vício de drogas

apaixonadas.

Cérebro em espiral de expansão 


E me sinto tão feliz, mas tão feliz,

Que o medo que a tudo persegue,

Se esconde, de medo,

Quando em seu beijo,

sua língua a minha alma invade.


AC


 






sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

TRAVESSIA

Onde estou, quando te quero?


Na flor do teu sorriso,

No repouso dos teus braços, 

No acalento das noites despertas.


Quero-te aqui e agora.

E ontem e anteontem 

Quando nem te conhecia.


Quero tua pele macia,

As pétalas todas abertas

E de todo amor, o regozijo. 


Quero-te na minha rua ou na tua

Em qualquer endereço perdido onde

Teu beijo me couber.


E assim vou ao teu encontro,

Para onde o destino levar,  

De onde o desatino vier.


Porquê quando estou, é que mais quero.


AC











terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

LINDA MOÇA


                      (para minha mãe)


A moça linda na frente do quadro,

quem és tu, moça tão linda?

Alma encarnada em doce de ambrosia,

ternura em forma de gente, 

meu aprendizado de amar.


Meu templo cheio de maternidades,

tristeza em forma de criança, 

pronta pra repousar em meu colo.


Como eu te admiro, moça linda,

e desejaria a ti toda e única 

felicidade desse mundo.


A ausência completa de dores e

tão somente uma repleção

satisfeita de gentis ardores.


Como eu queria nascer antes de ti,

pra te contar de toda tua santa formosura,   

reinado de inteligência e aptidões. 


Assim, faria o mundo recurvar-se a ti,

numa intensidade sonora e colorida

de muitos amores, muitos amores, 

muitos amores.


AC




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

AUTORRETRATO


    " Ninguém lembrará de ti, pelos teus pensamentos secretos "



Vivo a me desculpar 

Pois não é dado a ninguém entender

a não linearidade do meu pensamento. 


Minhas fúteis contradições,

meu amor de mãe extremado,

o tempo singular, parado no agora.


A ausência de medo onde habito,

ímpetos de intensidade que me possuem,

tubos de ensaio de loucuras. 


Poemas ocultos repousam em mim,

adormecidos,  à espera do despertar. 

Eu não os tenho; simplesmente,

psicografo-os.


Dentro do pensamento vai a desordem, 

rebanho aleatória de vontades,

e na língua,  na ponta da língua,

a palavra solta, avessa, e pronta 

pra ser redigida.


AC


DIZ

Diz-me das tuas entregas, 

Dos teus recalques, de onde a solidão 

fala por ti.


Diz-me de teus sonhos todos pintados de rosa

Das flores que tu semeaste, qual pretendes a-colher


Diz-me da tua própria floração; pele renovada

que tenta deixar para trás tuas próprias 

amarguras

 

Diz-me qual vinho tu és;

Da safra das uvas íntimas e doces,

colheita de uvas desejadas


Entendo que só se é 

o que se é; o que se diz,

visualiza ou contempla. 


E o que se deve ser dito

é quase um suicídio insano de se fazer ver

tão claramente, 

admirável coragem de espírito. 



AC