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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ORIGEM

Caberá a mim perceber, e zelar,
pela beleza ora dócil, ora transfigurada das palavras.
Ela nascerá dentro do meu pensamento
sem que de fato entenda como tal arte é possível;
e se revelará em um todo perfeito, antes mesmo
que chegue a se materializar em forma fonética.
Eu derramarei minhas palavras, como água,
em correntes de poesias.
E me sentirei imensamente feliz e humana.
Algo como uma dor muito forte, uma surda
e inconcebível explicação para o mundo
transbordará e se verterá pelas mesmas linhas em
que se misturam medo e alegria,
verdade e ficção.
Eu terei respostas.
Estarei em paz.
As birras do mundo, que são,
diante da beleza que guardo
dentro da matéria do meu pensamento,
esta que abriga sentimentos,
figurações e temores;
Caberá responder porque gozo desta paixão tão cega, 
que me torna cega em minha própria arrogância,
em um certo sentimento, quiçá inoportuno,
de altivez em poder ser dona
das minhas únicas, mas tantas, palavras.

AC

sábado, 19 de outubro de 2013

GOSTO RUIM


Tenho na boca um gosto metálico,
ferroso, das coisas que fogem ao entendimento,
arredias como lobos raivosos escondendo-se atrás das árvores.
O primeiro ataque ocorrerá, e, depois deste,
tudo e todos repousarão sob o leito das línguas malditas,
dos ódios divinais e certezas obscuras.
Vereditos de punição, nem estes calarão a
cólera dos homens-deuses.
Deve ser por isso que existem homens- bomba.
Na lógica taciturna de cada pensamento,
em cada um reside o julgamento, ou quiçá a falta deste!
E nas laudas outorgadas pelos acusadores
de vidas alheias, o lobo raivoso 
antes escondido mostrará seus dentes,
pois cada homem é o lobo do outro homem.
Na exposição das carnes, vidas e destroços
que nunca se remediarão, ainda assim o sangue canino
escorrerá em fios famélicos de punição eterna,
fogo eterno, castigo eterno.
É preciso alimentar a fúria antes mesmo da criatura,
pois se há instinto mau, há ainda um maior, visceral,
aquele que revolve a dor já devastada,
incondicionalmente rendida.
Nem os deuses exigem sacrifícios tão desmensurados.

AC






sábado, 28 de setembro de 2013

O TREM

Na tradução imperfeita do mundo,
gira a roda, o sol nasce,
o bicho caça, a noite vem.
Lábios trêmulos esboçam amores.
O beijo e a sorte são lançados
em cada momento.
O destino é o painel
ainda não pintado pelo artista.
Safras morrem; colheitas insurgem-se.
O destino é a terra que será plantada.
A pressa passa.
Paciência é o caminho completo
que se deve escolher no lugar
de atalhos.
Chuva cai, criança floresce;
(No pátio das pequenas
felicidades,
cultivo duas delas).
Trovadores versejam seus vícios.
E no recesso do pensamento
pequenos monstros esboçam
ódios desvairados
ou paixões enganadoras.
O trem avança no resmungar
da fumaça que soluça no céu.
O destino é o trajeto percorrido
no pavimento da mente.
Os olhos servem à leitura da existência
e a boca degusta os sabores
ou dissabores que o mundo,
gentil, serve em sua bandeja imperfeita.

AC











sexta-feira, 20 de setembro de 2013

MINHAS ROSAS NÃO ÓBVIAS


Hoje não quero rosas óbvias;
vermelhas, brancas,amarelas.
Quero rosas douradas!
E mais, quero rosas raivosas, 
estremecendo no ranger dos dentes
que não possuem.
Órfãs e de vestes nuas,
cambaleando no meio das calçadas
como divas rancorosas.
Quero rosas com pintura forte
em olhos de cílios muito espessos.
Andarilhas sem direção,
transgressoras do destino edulcorado
para o qual premeditam existir.

Estas rosas abrirão voo 
com pétalas que se farão asas.
E seu caminho não será revelado
a menos que para trás deixem
os rastros dos seus espinhos.
Fartas de traçados pueris,
elas seguirão bêbadas e febris;
Deixarão atônitos
os que creem que força
alguma pode reinventar a lógica
da ordem com o caos do
desconhecimento subvertido.
Aqui estão!!! Pois, e antes de tudo,
bravas rosas corajosas!

AC





terça-feira, 17 de setembro de 2013

SEMPRE



A glória abençoada dos meus dias,

meninas que me povoam os sonhos
em bracinhos e cachos e lindos lábios
com as risadas da divina criação.
Como respiro cada dia cada segundo
para não perder o tempo da transformação!
Minhas eternas deusas onde o dia
amanhece não uma, mas inúmeras vezes.
E no embalo em que nos braços
nos abraçamos, nos beijos nos beijamos,
sinto-as como tenra vida desenrolando-se,
alegremente, no recanto pleno
da minha felicidade.





sexta-feira, 6 de setembro de 2013

EPÍGRAFE


Quando vou de encontro ao meu passado, o que vejo?
Escondido no que as fotos não revelam
ao congelar sorrisos falsos e forçados,
Tristeza:solidão.
Talvez porque tenha me exposto
para registrar o que seriam momentos belos ...
Em todas, mantem-se no ar,
Tristeza: solidão.
Quando viro as páginas deste catálogo
e se desenrola minha vida mês a mês,
sonho a sonho, vislumbro o devaneio perdido,
Tristeza:  solidão.
As entrelinhas das fotos são bem claras
enquanto embalo bebês e bonecas
e bolos e confeites de alegria, mas lá pairam,
Tristeza:   solidão.
Em todas, rebobino um filme como
se recordasse de forma exata cada minuto,
cada afeto negado,
Tristeza:    solidão.
Procuro nos olhos, nos gestos retidos
onde o amor não se encontra
mas repousam de forma silente,
Tristeza:     solidão.
Reiteradamente,
percebo o apreço negociado,
mas o débito quiçá seja muito alto.

Hoje o dia calha bem para o desalento,
nesta tarde chuvosa de cinzas,
tradução exata da minha epígrafe:
Tristeza.
Solidão. 




QUEM



Lá vem ela, sutil,
a tirar-me o sorriso,
levar embora a paz,
encher-me de instabilidade.
Ela não se importa com meu medo,
faz pouco da minha coragem falsa
e me transforma em mera bobagem.
Caricatura do pensamento em razão,
eu, tola, rendo-me facilmente.
Extrai-me lágrimas à força,
mesmo quando, desatenciosa,
flerto com a normalidade.
Ela aparece tão repentina
que se aproveita de um momento qualquer.
E é tão delicada ao sufocar-me
que até creio que me queira bem,
em minha tola pretensão poética.
Ela se importa ou não, afinal?
Ao macular minha zona de conforto
quer mostrar-me algum caminho?
Ao acinzentar, descolorir, 
deliberar à minha revelia
e me impor suas condições,
sinto que afinal sou mesmo
um ser pequeno e pouco estável,
criança que acabou de nascer 
ou alguém na percepção de sua morte.

Acho que ela gosta de mim,
pois ela vem, sempre.

AC











sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A ILHA 2



Eu não quero assim, os dias poucos.

Roucos como pássaros sem canto.
E preciso das rotas de fuga marcadas
Preparadas para me guiar um tanto.

Quando esse dia chegar, assim, do nada

Estarei sentada com as mãos nas malas
onde estão guardados meus desejos.
Abjetos defeitos, pois como podem
existir desejos sem fé?

Se não me norteio, pois não há um norte;
Se vago a procurar coerência,
perdendo-me mais que me encontrando
no pátio destas abstinências

Se não me encontro com a felicidade

pois nela nem acredito, nem me fio
Resta somente uma colisão de rotas,
desvairadas, travando-se no frio.

Eu quero assim, a vida breve

E tão somente justa que o destino me couber
Na ilha isolada de medos e lutas
não há como resgatar os desejos sem fé.

AC



DESVIOS



A beleza da palavras que me compromete

Que me revela
Que revela que não sei o que quero saber.

Mas sei.


Sei das noites geladas,

Dos dias surdos,
Dos domingos sem compaixão.

Eu sei.


Sei da brisa desejada

E do brilhos destes olhos,
marejados, tardios, escuros.

Quanta adjetivação.


Como elucidar uma vida?

Como retratar-se,
digo, pintar-se em autorretrato?

Não sei.


Tudo que sei vem da dor

que sinto
Talvez saiba, no fundo, 
o quanto minto.

AC


O RETRATO DAS MINHAS FILHAS


Aqui, nestas páginas,
o tempo doce, a vida sadia.
O sonho mais belo,
fruto maduro no tempo certo,
colhido na hora exata.
Aqui, a doçura da vida.

Folheio-as: revivo cada momento.

Aqui, pura felicidade.
Sem dores, mundo perfeito.
A rosa que não me fere,
palavras em rima,
sorte, sucesso.

Risos: minhas obras-filhas!

Aqui, a quietude,
a paz interior que, sim! pode existir
Flagrados em um tempo
onde se acredita em Deus
e as bençãos são eternas.

Passo as páginas: minha sucessiva vida.

Aqui, ainda assim,
sou capaz de sentir-lhes o cheiro!
Ouvir as risadas
que não se vão com o vento,
ou que o vento sempre traz de volta.

Aqui, sempre a volta: alegria, amor, alegria.

AC





sábado, 17 de agosto de 2013

VIDA

Eu, que tudo tenho
Que nada tenho
Que tanto temo.
Que tenho tanto medo.
Eu, que me intrigo
Que não entendo
Que tanto insisto
Tanto desisto.


Eu, que sinto pena
Que sinto frio
Que sinto tudo
Não sei de nada
Imensidão
Princípio e fim


Piscina de aneis,
elos desencaixados,
caixa repleta de coragem fingida.
É difícil entender.


Por quê a vida.

AC



terça-feira, 13 de agosto de 2013

MEDÍOCRE

Se tudo tenho e queixo por tão pouco
E o que resenho, em todas as paradas
É infiel retrato das minhas caminhadas
O que não há, dói como sonho louco

Se quero tudo e julgo tão pequeno
Ser necessário ter mais sempre e tanto
Vivo a respaldar humano desencanto
Ao não encontrar o tolo humor sereno

Pois ao acatar a insana criatura
Que vive a chorar eterna insatisfeita
Que vive a sina de temer por tudo

Passo a sentir-me tal caricatura
A perseguir uma felicidade eleita
Nunca encontrada, e vivo assim em luto.

AC










terça-feira, 6 de agosto de 2013

A CAIXA


Escondi, na caixa, o pio do meu passarinho.
As risadas dos meus amigos.
Os gritinhos das minhas filhas.
Belas músicas portuguesas,
fados dolorosos e encantados.
O estardalhaço da buzina dos carros.
O som da conchinha do mar.
O suspiro do enamorado.
O trote de Clara em seu cavalo.
E de Elisa, o chorinho emburrado.
Ah! Guardei...
Vinícius recitando poesia
e Caetano cantando "Alegria alegria".
Palavrões de desordem e protesto.
O chiado que sai da panela.
O assovio do outro lado da janela.
A conversa inaudível dos golfinhos.
O choro mais belo da vida.
E a risada mais singela de ouvir.
O último soluço do guerreiro.
E o ruflar das asas da liberdade.
É de espantar, de verdade,
que neste caixote quadrado,
guardei tanta lembrança da vida.
Que até nele guardei com cuidado
o pio do meu passarinho!





BREVIDADE


  (para Tio Fernando, com amor)

Éramos os três
que iam ao mar.
Duas crianças, um adulto,
meu tio, zeloso, a cuidar.
Nas fotos guardadas da infância
vocês sempre estão lá;
nas brincadeiras no mar;
no picolé (que não devia aceitar).
Nas traquinagens no quarto,
pendurados na janela;
na árvore que ainda hoje
existe, quase de sentinela.
Eu, meu primo, meu tio.
Um dia, a vida mostrou
seus dentes:
meu primo morreu;
meu tio doente.
Eu não queria ter visto
a vida tão feia assim.
Um primo predestinado
a ficar preso; burlou a vida,
aceitou a morte,
brutal e intolerante morte!
Meu primo queria ser livre e
liberto finalmente foi.
Agora, restávamos dois.
Mas meu tio, querido,
doente,
que dor vê-lo sendo levado,
pela vida, que mostrou seus dentes.
Que dor pressentir o futuro
tão próximo a estar longe de ti.
Mas quero que parta, querido,
pra onde as dores não irão,
não mais, não mais lhe afligir.

Ontem fiquei com você.
Ternura e fragilidade;
o homem virando bebê.
Vi o que não quero ver.

Ainda custa-me a crer
que éramos os três que iam ao mar.






terça-feira, 23 de julho de 2013

"A ALMA IMORAL"

         
         (baseada em peça homônima)

Então a alma imoral apossou-se de mim.
Tão lucidamente esclarecida,
afastada de domínios e sem necessitar de fé,
de súbito, eu compreendi.
Que ela está lá, está aqui,
tornando óbvios os desígnios,
nítidas as necessidades,
claras as visões.
Esta compreensão é tão natural
que pasmo, seja possível-
dela já não tenha
antes alguém se inquirido!
Que se o corpo reflete algum princípio,
a alma reflete cruas inquisições,
abrangência de sentidos
submersos, em lagos de subversões.
A alma impera onde tudo é permitido;
e se não o é, passa a ser
a verdade das loucuras célebres,
a coragem da nudez proscrita,
os mapas dos encontros predestinados.

A alma é o escárnio sem culpa
e a vergonha deliberadamente exposta.

Antes de tudo que a consciência exercita:
amar, obedecer, crer, realizar,
contemplar, verbalizar,ofertar ou receber...
... urge saber-se absolvido em uma alma assim.

AC


sexta-feira, 19 de julho de 2013

AQUELA QUE VEM

A companheira dos meus doces sonhos,
veste-se com fino brocado,
tem pentes de marfim presos à cabeça
e dorme fugidia seu arrastado sono

A companheira que vem visitar-me
Está muito arrumada, sempre.
Nas faces róseos rouges desvarios
Abre-me os longos braços a acalentar-me

A companheira que me acaricia o ombro
resguarda-se do frio com tricô aveludado
e tem dentes talhados em ouro,
tão rica tão forte que dá até assombro

Mas ela quer-me bem, tão cheia de bondade,
que me cobre de acalantos ao transbordar-se inteira,
assim, sem medo e cheia de coragem,
tão minha companheira é a tenaz saudade.

AC 



quinta-feira, 18 de julho de 2013

A PRAIA

Você me remete ao mar
E a brisa fresca e doce do final da tarde
envolve meu corpo deitado, como se fossem
delicadas carícias suas.
A areia me encobre com uma fina camada de quartzo
e estou protegida.
O sol do final da tarde sutilmente me aquece
como se seu corpo ali estivesse,
ao lado do meu.
O tempo é fresco, a tarde é quieta;
pode-se sentir paz.
Continuo enamorada, mesmo
com a distância além-mar
e a dilatação do tempo.
Minha boca seca pode sentir seus lábios umedecidos.
Minha mente triste descansa seus temores
na longínqua linha do horizonte.
Você, tão longe, ainda está aqui.

Eu olho ao mar ,
e me remeto a você.

AC 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

LEMBRANÇAS

Hoje voltei a ti,
saudade pura em poesia...
Há tempos ando afastada,
mas o vício percorre minhas veias.
Os tempos andam difíceis,
e tu, como estás minha poeta?
Encolhida em teu canto de escrita,
a rabiscar sobre rosas,
os segundos de tuas filhas que voam
mais alto e rápido que os teus!
Saudade, palavra boa,
Saudade, palavra eterna,
da minha boca para teu coração,
da minha linha para tua página,
dos meus contos pros sentimentos,
desvãos intensos de liberdade.

Há tempos lembro de ti,
poeta que escondo em minh'alma!
amável subterfúgio!

AC

domingo, 5 de maio de 2013

SE VOU


Eu venho a ti como vou aos deuses
Em orações surdas, dores matinais,
inchaços de loucura.
Em sonhos de doçura cândida,
paz lívida, queixas de desejos maternais.

Eu venho a ti como procuro os anjos
Os decaídos, os excluídos, os possuídos
em rasgos de loucura.
Em lençóis frios do azul-paragem
jogado acima das nuvens e dos desvalidos.

Eu venho a ti como procuro a morte
Em obstinação muda, encontro de doentes,
fontes de loucura.
Em jazigos de solidão tão profunda
que me abafa a alma e me faz dormente.

Eu venho a ti como vou aos pássaros
Aos cheiros das rosas, das régias e anas
inflamada em minha loucura.
Em perfumes de vitórias tão inocentes
quanto os exalados pelas luxúrias mais profanas.

Eu venho a ti....
Eu venho a ti...

Anita Campos

sexta-feira, 3 de maio de 2013

MONDO

Tenho sorte nas mãos
e luas na cabeça
que giram na órbita dos meus olhos assombrados.
Tenho dourado nos pés
pois só me guio pelo caminho das pedras amarelas.
Tenho pernas de bailarina
e liberdade de cavalo selvagem.
Voou a galope à paragem dos meus sonhos
não estacionários.
Sigo o infinito com a certeza
de que encontrarei poesia
ao final do arco-íris.
E em minhas íris, contínuas luas
em suas órbitas revolucionárias.
Sigo o caminho amarelo
das pedras que um dia foram douradas.
E em passos rápidos me norteio
para sonhos tão selvagens.
Brindo a loucura
a insensatez
e o delírio.

A poesia nada mais é, que tudo isso junto.

AC


segunda-feira, 25 de março de 2013

MACHU PICCHU

                        (para André Furtado)


No centro do vale, perfeições inacabadas.
Os homens não estão mais ali.
No alto da colina: O FRIO A FEBRE A NEBLINA.
O condor voa mais alto,
o puma é ágil em seu salto;
a serpente te escolhe em teu enigma:
Diga-me, para que tu virás?
Eu vi quase uma miragem em meus olhos;
Na paisagem cheia de feições antigas,
maravilhosa miragem!
No alto da colina, O VERDE O VELHO A VERDADE.
O condor está acima,
o puma é cauda sem crina;
a serpente te paralisa tal qual esfinge:
Diga-me, em que acreditarás?
Eu vi o impossível em minha retina:
retida, aberta, na imensidão!
Na paisagem das feições antigas
das maravilhosas miragens....
Eu olhei através do mirante e vi.
Leveza e tonelada,
Frescor e onipotência,
Medo e felicidade,
Inquietude e admissão,
Perseverança e premência 
Soberba e maestria,
Tempo e espaço,
Terra e submissão,
Caminhar e passo.

Certeza absoluta.
Possibilidade infinita.
Verdade e urgência.

Então vi mais que um deus:
eu vi o homem.

AC




sexta-feira, 1 de março de 2013

QUE ROSAS?


As rosas que esperem por mim
pois eu cansei de esperá-las.
Tanto as canto em poesias,
fascinada em existir algo tão belo.
Do recorte ao odor,
a incandescente flor,
forte ao tempo em que é singela.
Desejo as pétalas retorcidas
que não se oferecem, recolhidas.
(Desabrochadas, ainda estão escondidas).
Expandem-se no aroma sutil,
nas mãos tem-se o toque acetinado.
As santas rosas vermelhas,
ruivas de paixão, flores orgulhosas.
No porte garboso, não há recalques
nem medo em se mostrar tão bela.
Mas porquê os espinhos?
Melindrosos caminhos
desta flora paradoxal
ao lancetar a mão que procura carinho!
Seria o retrato da vida real?
(Beleza e dor em um só pergaminho).

Oh rosas afáveis,
passo a vida a procurá-las
neste endeusamento de virtudes.
Mas canso de esperá-las,
nos anseios e ilusões
do meu jardim de finitudes.

AC





terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SORRISOS CONGELADOS

O sorriso congelado me espreita, me encanta.
Seduz-me o charme retido no lapso da memória
da máquina fria.
Aquilo durará eternamente.
A áurea doce, tranquila, convicta
de que  piores aflições não existirão.
São olhos jovens e cheios de energia;
de pessoas talvez belas, talvez difíceis,
talvez mansas, talvez intransigentes.
Por detrás da foto, respiramos a vida ali contida.
Tão belamente enquadrada, guardada
ao seu lado, na mesa de centro, na mesa do canto,
no console, no criado-mudo.
Dentro da mente.
As pessoas insistem, estão tão vivas, tão
real ou irrrealmente felizes, na fantasia
colorida da foto.
Impossível não admirá-las
ou não imaginá-las eternas.
As fotos nos enganam.
Tentamos burlar a morte,
mostrando-lhes a incongruência
de toda esta riqueza simplesmente sumir.
A morte não se compadece.
As fotos, e não as pessoas, existirão para sempre.
As pessoas restarão
nem sempre do lado da cama,
na mesa de almoço,
na compainha do bar.
Talvez resistam para sempre emolduradas em seus belos sorrisos.
Sim, certamente, os sorrisos durarão para sempre
dentro da mente.

AC






domingo, 27 de janeiro de 2013

SE FORAM


Palavras em lábios que procuro
Amigos cujos destinos tanto desejo
E no final do dia estou só

Sonhos que se escondem em fria realidade
Gestos cúmplices que não existem
E no final do dia estou só

Cabeças ordenadas a como pensar
Eixos orientados a uma direção sem curvas
E no final do dia estou só

Passeios sem flores ou doces,
Belas pedras portuguesas fatigadas
E no final do dia estou só

Casas com muros altos
Cercas de impossível transposição
E no final do dia, estou só

Chuva que nunca refresca a alma
Nós retorcidos pelo corpo
E no final do dia, estou só

Gentilezas que não me procuram
Afeições que canso de tentar oferecer
E como me sinto, ao final do dia, só.


AC





quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

ESCOLHAS

Vim te visitar, amor secreto,
afogada de saudade deste refúgio
onde fico tão liberta.

E meus pensamentos explodem,
me contaminam, e quero
esta doença eloquente.

E desejo tudo, o céu, o mar
e o colchão de amar do poeta.

E tomo as palavras pelas mãos
e com elas passeio pelos
arredores da vida.

Os jardins todos se oferecem
e as rosas, despudoradas,
abrem suas pétalas.

Ah, meu doce recanto,
onde encontro todos a um só tempo,
na memória do pensamento.

Nos meus olhos fechados,
tenho à frente as cores
de Marc Chagall

Eu sou a moça que paira
sob o fundo onírico de
uma de suas telas

E sou a virgem de Vermeer
com pingentes de pérola,
sou o grito amordaçado de Munch

Sou a menina do colar de coral,
um verso de um soneto de Vinícius
e do meu pai,um conto surreal 

Eu sou a pequena Sofia
aprisionada na história dentro
de outra história

E Juliana arfante à espera
do primo-amante, o incesto
predestinado dos Maias

Não tenho limites! Tenho livros,
afrescos, paisagens abertas onde
deixo passear livre a minha moral!

AC









sábado, 5 de janeiro de 2013

CETIM



A tela em branco me olha.

Me espera.

Me analisa.

Paciente, impaciente.

Não se exaspera;

não tenho todas as respostas.

Tenho devaneios, miragens

e saudade impertinente.

A tela em branco não pisca.

É fria observadora coerente

na sua passividade ambígua.

Me espera.

Me fustiga.

Quero dizer algo que valha,

palavras belas,

encantos singelos,

lirismos.

A tela continua aqui.

Impávida e inflexível,

bidimensional.

Às vezes ela convida.

Em outras, castiga.

 

AC