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terça-feira, 23 de outubro de 2012

O NÁUFRAGO

                               (para Ados)


Cá estou, náufrago à deriva
no mar dos meus doidos anseios,
amor compelido em vida.
Afugentei-me da embarcação
que construí com ideias.
(Ou expulsaram-me dela ?)

Debato-me nas marés, metáforas da dor.

(Quando estarei salvo?)
Coração aquietado, sem enfrentar
os perigos das ondas gigantes
da solidão e do medo?
Mas meu barco partiu-se
e abandonei-me ao mar.
Neste gigante em seu balé
de marés que nunca se interrompem,
em pensamentos que vem e vão,
à tona a segurar-me em
confusos sentimentos.
Avulso, no oceano gigante dos fatos,
este maremoto revolto,
indelicado, que seguiu seu rumo
à despeito as minhas vontades.

(Mas  quando, afinal, guiamos
nossas direções, em que ponto
poderíamos ter voltado atrás,
se o destino que concebemos
é aquele que no fundo, desconhecemos?)

O barco me levou longe demais e
o mar me arrasta mais ainda,
mas espero obstinado a hora
em que a terra alcançará minha vista
e, não mais náufrago,
irei recuperar um bom porto,
outro destino que espero escrever melhor.

AC







sexta-feira, 19 de outubro de 2012

EM MIM

Desejo o mistério e o silêncio.
Noites perenes, mente vazia.
Desejo o nada revelado.

O ângulo no canto do quarto.
O sapato virado de lado.
O que não precisa ser explicado.

A televisão ligada
e os olhos que nada acompanham.
A respiração quieta, coração delicado.

A preguiça da cama,
a calma do gato,
a roupa ao avesso, alinhavo.

O avesso da morte,
a vida em embalo,
a pressa esquecida no prato.

Não me venha a manhã
pois me ilude o amanhã,
o agora é tão pleno de ato!

Quero um livro e belas palavras.
A história que nunca foi minha.
O poema inato.

Quero a frase retida,
a constância da hora
e o pulso em retardo.

Quando a noite se for,
alvorada a prosseguir,
sol em frenesi,
não me abalarei;
simplesmente o que sei: 
estarei.

AC




domingo, 14 de outubro de 2012

ALMA GENTIL



O que faço por merecer,
ou por desmerecer,
eu que nada quero senão
o conforto de ter-se
como coisa delicada,
alma gentil, carinho doce.
Eu que aprisiono pássaros dentro de mim,
para libertá-los pelas palavras.
Eu que me transloco pelo universo,
na força da minha fé diante do desconhecido.
Eu cujos olhos são janelas em
incansável perseguição a entender
os delírios interiores, meus ou alheios.
Eu que sinto que tanto tenho,
apesar de não alcançar o que de fato desejo.
Talvez por não merecer,
nunca me venha o conforto de ter-me como
coisa delicada, alma gentil,
docemente acarinhada.




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

MIRAGEM

Meu corpo abriga um deserto
de imensas areias.
Onde não há configuração de um oásis
de águas claras e doce sombra.
Esta miragem não está no meu finito.
Mas não reclamo sede; não desejo água.
O sol que em mim incide
tem sopro de impiedade e castigo.
Sou só neste mundo desertificado.
O silêncio ensurdecedor do vento 
se eleva e me cobre a areia.
Estou escondida,
meio barro, meio gente, meio nada.
Camuflada na inexistência vazia,
na vastidão onde se perdem os desejos,
as descobertas, os amores.
Onde não se reconhece a alma,
consistência interior, matriz divina.
Então meus olhos já não veem;
minha boca não sussurra;
minhas mãos nada tateiam.
E nem mesmo caminho
pois estou sendo enterrada,
corpo inerte, mente submersa
na escuridão das dunas que se
tornam minha própria paisagem.
Não deveria deixar-me afundar viva.
Mas o que faço para desencavar esta desolação
perturbadora à minha volta?

AC