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sexta-feira, 29 de setembro de 2023

AGOSTO


Sinto muito sua ausência, 

nessa raridade de toque, a morte,

que me invade em penitência. 


No corpo que não há, 

desloco-me no mundo além, 

órfã que estou, do que não encontro mais cá. 


E descolo-me de todo passado

de lembranças,  andanças, formas,

sons, tintas, linhas e olfatos.


(Você anda a visitar-me em sonhos;

Brisas ainda frescas dos nossos

cotidianos). 


Na memória,  seu último semblante 

Seu calor materno ainda a a aconchegar-me

no leito de partida, frio e disforme.


E agora, eu me recolho em suas cinzas

Último recanto da sua presença

que ao meu lado, em paz, dorme.


AC





quinta-feira, 31 de agosto de 2023

ESSÊNCIA


Aí estás ti que me vigias

Num silente perscrutar de minhas dores

A morte a rondar-me

 e a subtrair meu mundo.


Que tempo que é. 

O tempo do repasse rápido e fugaz

Sombra da morte, 

essência da minha frugalidade.


Memórias se esvaem nas fotos,

templos vazios que não mais existem. 

Eu te procuro, mãe,  em todos

os buracos da minha existência 


Eu te refuto, morte,

antítese nossa de cada dia,

O mundo que não há,  mãe que se foi,

nesse incessante velar de vigilância.


AC



sexta-feira, 18 de agosto de 2023

ANDARILHO


Amar

Verbo reciclável 

Escondo objetos de fuga e solidão 

Em tantos colos em que deito.

Sempre a procurar: Amar.

Esse verbo irrefreável

Impetuoso imperfeito

Em cada colo, um Amar

Em cada busca, aqui está 

A tristeza que bate no peito.



AC

sexta-feira, 9 de junho de 2023

A BAILARINA


O que sonha a bailarina?

Com troncos em suas pernas

e escápulas fabulosas.

E braços, longos e gentis,

que se avolumam cautelosamente 

e se estendem num esgueirar-se infinito.

E a ponta, do pé doído,

que equilibra o corpo, que equilibra

o ritmo, que equilibra um edifício.

Mansa, qual gato sorrateiro.

Leve, pluma em voo absoluto.

Livre e solta a saltar, a girar,

a avançar, intrépida,

a construir redemoinhos,

arquiteta e deusa da beleza.

Dos seus sonhos possíveis, o que há?

Há a loucura humana, que sonha

ardores em seus pequenos seios

e famélicas cinturas desabrochadas.


AC



sexta-feira, 28 de abril de 2023

O QUE SOU


Brindo os pensamentos,

quando vertem-se em poesia.

Surgem para acalentar.

Possuir a alma, refúgio do infinito.

Criar gentilezas, padrões ouro 

e espelhos de abstrações gentis.

Que seria da vestimenta 

ordinária da vida

sem as palavras que dão sonhos,

traduzem intuições e pintam

quadros livres, felizes ou

melancólicos,

numa pura essência de deleite

e humanidade. 


AC



ESTOU

 

Estou


Na rua escura, parada e nua

Sentindo o silêncio que vem de mim,

Vem da outra margem,

vem de todos os cantos. 


Descubro


Que quando não há frio, medo 

ou desespero 

Tampouco luz, amor ou

melodia

O coração ainda bate,

silenciosamente 

Ou ruidosamente 

Com as sobras e pedaços que re-existem


E como haver vergonha na nudez

Mesmo exposta ou alheia ou visível 

Se no corpo jaz somente 

O que não reside?


Como um vaso sem sangue,

Uma alma errante, 

sem luz, fome ou abrigo.



AC