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domingo, 10 de julho de 2016

O GRITO

Um dia
O grito alto, vivo, louco
Se tornará mudo, breve, rouco
Os pássaros dolorosos abrigados no peito
Romperão as asas em voos supremos

Os olhos inquietos ansiosos de nostalgia
Fecharão o passado para-sempre-para-trás

O leito cansado da água vertida
Se revestirá de recato, amparo e proteção

Toda a confusão e rebeldia sentidas
Serão quietude na constância e estabilidade

A incompreensão das tantas horas dolorosas
Serão objeto para afetos redigidos

E o grito forte, quiçá triste, quiçá rude, quiçá chiste 
Sucumbirá na melodia dos dramas
Que já não existem


AC

ALMA


(
para minha amiga Alessandra Carneiro Pondé)

Coração que bate quieto
Plantei em si a pequena grande semente da esperança
Nunca imaginei que poderias voltar a ser tranquilo
ou sorridente.
Nunca pensei que encontraria dentro de si mesmo
grãos adormecidos de sonhos,,nuvens e leveza.
Doidos caminhos tortuosos e áridos da vida
Quantas vezes nos enganamos com o óbvio:
Algum dia inevitavelmente, estaremos sozinhos.
Que venha doce esta solidão  e não amarga
Que venha via de aprendizado e busca
Ou que seja simplesmente o não querer nem tanto procurar
Ou o tanto ainda mais entender
A vida não carece ser compreendida,
mas sonhada.

AC




quinta-feira, 10 de março de 2016

RAÍZES



Eu espalmo minhas mãos,

grandes, em busca do infinito.
E sinto irradiar-lhes entre os dedos
as pequenas cargas de energia, auras,
cosmos, supra percepções.

Estou conectada.

Ao mundo, ao eu, às possibilidades,
àqueles que desconheço e por quem
nem mesmo sinto amor.

Eu sinto a força da minha ousadia.

Livre, não somente eu levito, 
eu entrego, compreendo, aceito,
ou, contrariamente,
questiono, revolvo, insisto.

As minhas mãos são como gigantes focos,
experientes raízes,
espelhos retrovisores e antevisores,
dois barcos a carregar o drama e a alegria
da consciência das ondas.

Eu me acolho tão forte, 
que chego a me sentir sublime.

AC

domingo, 6 de março de 2016

CRUCIFIXAÇÃO



Lançada estou neste turbilhão afetivo

Em que mesclo uma melancolia transbordante
Em confusos choros de alegria e tristeza
Onde não me encontro nem me realizo!

Perdida estou, sem nítida compreensão
De para que me encontro neste infortúnio
Qual meu lugar, ventura ou qual meu ofício
No mundo inverosímel em que habito!

Assim me procuro em vasto tudo/ longo nada
Eu me vasculho e me entendio e me pergunto
Eu me emociono e sobretudo me entristeço
Na hora oca que prolonga o sofrimento!

Oh meus amores, perdoai a vossa mãe
Por nem em vós ter a resposta às minhas dores
Ao nó cronicamente a mim enlaçado
Feitiço extremo, mau agouro, amargo unguento!


AC

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

LIQUIDEZ

Eu, sentada deste lado,
miro no oceano a certa loucura do meu desejo;
úmido, como a maré,
intenso, como a força da onda,
tormentoso, como a correnteza,
forte, como esse colosso de águas.

Eu, sentada na beirada,
belisco com a ponta dos pés o teu corpo,
e pelas marés tateio o beijo longínquo,
procuro tuas mãos quentes,
conduzo tua boca cálida,
volúpia minha guardada em ti em segredo.

Eu, então do outro lado da terra,
sempre vou a ti, e sempre vens a mim,
no influxo e refluxo das marés,
neste balé provocador que incita instintos
e dá ritmo aos corpos.

Talvez seja enfim a saudade da maré 
o verdadeiro destino
e o oceano, quiçá, a imensa cama aberta,
pacientemente, à espera.

AC

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Breves discussões cotidianas

Sobre os julgamentos:

E quem sou eu, para julgar os outros?

Como posso me justificar diante da necessidade humana de apontar falhas, indicar desvios, repelir compaixões?

Como pode um ser antropocêntrico, alter ego, mas repleto de falhas e contradições, sentar-se na cadeira alta do magistrado para impor suas vontades sobre às de alguém?

Como posso achar-me criatura maior ou melhor, desde que os pecados alheios não sejam insuportavelmente impiedosos?

Sim, julgo os assassinos; os criminoso de guerra; os fanáticos de qualquer natureza. Neles recai o meu carimbo de incompreensão, o meu desprezo, a minha incapacidade de assimilar as loucuras. Tranco-os nas jaulas dos malditos, expulso-os do paraíso - ou do inferno - da convivência humana.

Mas para a maioria dos mortais que fazem suas escolhas honestas...sou tão igual aos demais em minhas próprias falhas, que não cabe a mim arbitrar.

AC

LAMPARINAS

           (para elas)

Eu, te carreguei no colo,
luzinha minha
nascente de segredos pequenos 
e alegrias desmesuradas
docinho pacientemente dourado ao forno
telha onde a chuva gentil me atinge
mas não raios e trovões
tato da maré calma batendo em meus pés
trazendo o murmúrio das ondas
colarzinho de cristais antigos
pequena concha rosa despida na praia
fuga para o túnel das maravilhosas lembranças
chocolate aquecido derretido 
tom do azul em um belo céu de inverno
manto colorido de patchwork
bordado delicado de crochê antigo
teia graciosa de aranha
escadinha para a estrelinha do céu
alegre bolha de sabão
canção de ninar e ave-maria
bichinho de pelúcia
labirinto de eternas novidades
fonte da paixão
rosa de amor dos destemidos
fulgor do sol, frescor da lua
bailarina da minha caixinha de música
frescor eterno da juventude
pequeno cantinho de mimos
e de fadas encantadas
bater de asas das borboletinhas
caramelo, bala de côco, doce de leite
arraiar do dia, sono bom da noite,
sonhos de vida e alquimias.

Eu, te carreguei no colo,
poesia minha.

AC

DO QUE É PROFÉTICO


A gente vive das saudades das gentes,
das saudades dos tempos de agora e outrora
das saudades dos filhos quando ainda pequenos:
sempre é no passado que a saudade se arvora.

As saudades da água que um dia secará
as saudades dos bichos já quase extintos
como dos elefantes mortos nas torres de marfim

As saudades dos peixes que um dia nadaram
e das cores em mosaicos de antigos artesãos
e do tempo onde a hora é infinita e demora

As saudades dos insetos cavando no chão,
nas terras batidas e com cheiro de charco:
a saudade só em vilas antigas é que mora

As saudades das moças nos velhos retratos,
tranças no cabelo, longas saias de linho
a saudade em recato que o tempo despudora

A gente vive das saudades antigas
Inclusive de tempos em que nunca vivemos
saciados que estamos da vida no agora!
Pois há sempre um passado, na saudade que arvora.

AC