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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ÉTER

Tenho em mim a essência dos exageros.
Dos destemperos.
Dos temperamentos imprecisos,
embora guarde, recalcada, a chave
do meu paraíso.

Tenho saudade do amor.
Recolho a distância dos amigos
em um canto incomodado do meu peito.

Flerto com os cheios de alma,
voláteis espíritos em chamas.
Irrita-e a calmaria inerte dos
que não provocam, não discutem
nem se comprometem.

Guardo mais do que mostro.
Dentro de mim, pássaros voam.
Esta placidez aparente esconde
o bater constante de desaforadas asas.

Tenho desordem e inconstância.
Na introspecção com que olhos as pessoas,
mil ebulições fermentam a minha alma.
Não questiono a morte, incomoda-me a vida.

Registro os sorrisos, os descasos,
vivo a solidão interna dos que
muito retêm seus desejos em sequestro.

Sou o redemoinho do encontro
das correntezas.

As palavras me conhecem por completo.

AC




















sábado, 24 de novembro de 2012

26 DE NOVEMBRO

Você veio pra mim sem dores,
meu doce bebê de ouro.
Dentro da minha barriga redonda
como uma lua plenamente cheia,
não sabia que guardava tanto encanto.
A ternura estava lá contida;
não lhe conhecia o sorriso fácil e muito aberto,
o brilho de sua alma tão liberta.
O seu choro foi alto e forte,
( primeira reclamação que fez a mim!)
Você quis meu colo, e aquietou-se
como um passarinho no
refúgio onde o mal não existe.
Ontem, você me disse: eu te amo.
E eu lhe quero tanto, mas tanto,
que hoje sou eu que me aninho
em seu corpinho infantil,
paraíso das horas em que
nada mais no mundo existe
e também o mal nao me encontra.
Nestas horas, estamos só nos duas soltas
no tempo e no espaço
a girar entrelaçadas, corpo e alma,
amor em êxtase, mãe e filha,
sublime amor.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

O PEIXE

Sinto tanta dor nestes dias
que é difícil conter as lágrimas.
O coração em desânimo.
E torno-me, assim, produtiva,
poeta no redemoinho de sua dor.
A escrever loucamente
como a um padre se registram
confissões em série.
Mas não tenho um terço para
rezar minha tristeza,
pois nem a um deus delego minha dores.
Os peixes encantavam Cecília;
talvez porque os peixes
não pareçam sofrer,
seres tão estáticos e pouco emotivos.
Mas dos peixes, tenho os rasgos de guelras
em meu pescoço,
a tentar tragar com violência
algum oxigênio.
No mar em que habito,
ou no lago da minha introspecção,
o que preciso não é do oxigênio.
Mas sei precisamente o que preciso.

AC 




REVELAÇÃO

Onde estão as pessoas?
Onde estão?
Em suas casa vazias?
Em suas almas vazias?
Onde está a solidão?
Mora dentro de mim?
Palco de dramáticos conflitos
nas peças teatrais da minha vida...
Onde está o carinho?
O despretensioso,
o cheio de alegria,
com seu gosto de doce
e cheiro da rosa
colhida no momento
do seu maior deslumbre.
Onde está o azul dos dias?
O azul do inverno,
o mais belo dos azuis,
senhor soberano das cores.
Onde está a minha tristeza?
Retida nas minhas amarguras,
frustrações e invalidez
de sentimentos?
Onde está a minha morte?
Eu que tanto a espero,
mesmo sabendo ser calunioso
renegar a vida.
Eu vivo de perguntas;
de palavras escritas
que me fazem
a doce compainha das horas.
Eu vivo de anteparos
para minha queda.
Eu vivo de tristes constatações.



AC




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MOVIMENTO

                          " Navego pela memória sem margens...."
                                        (Cecília Meireles)


Eu tenho sonhos; sonhos tão remotos
quanto a visão de um paraíso esquecido.
Guirlandas de flores virgens
tecem em minha fronte a coroa
abençoada.
E os cheiros das florestas,
posso todos respira-los;
odores ocres, acres, agridoces.
O firmamento azul se esgota
no encontro com a terra acetinada;
coberta de capim santo,
lírio branco,
ah! os belos lírios,
delírios desta visão adocicada.
E a vida é pura!
E o ar é fresco!
E a água é limpa,
rio onde transbordo meus desejos.
Musgos sobem pelas minhas pernas,
enredam-me neste jardim de amor.
Já sou parte do sonho, poesia em flor.
E em meus ombros, asas articuladas,
tramas transparentes, sinto-me alada!
Ah, os meus anseios,
Sonhos de uma felicidade tão amada!
Estou em êxtase;
na doce calmaria agitada
meus pulmões expandem e 
não me articulo em nada.
Nada me é vão,
nada é parada.
Tudo é um fluir em alma encarnada.
Tudo é sol e céu, é flor e água,
e todo encanto concebido no sonhar
remoto, mas percebido,
é o milagre da vida em movimento;
como a minha coroa, vida abençoada!

AC





terça-feira, 13 de novembro de 2012

SONETO DAS OITO PATAS


Perfilam a um canto as aranhas entretidas
A fiar e desfiar suas teias de rosário
Entre linhas e remendos queixam-se da vida
As velhas damas, na perícia do trabalho

Mentes e patas afinadas em locomoção
Confusa, a mesma linha que tecem
São um guia em contínua produção
E ao tempo que fiam também rezam preces

Nas teias formadas com tanta mestria
A beleza se confunde com o desejo
De embalar as presas que virão tardias

Pobres sombras cujo destino não almejo
E ao orar no rosário das teias vazias
Pedem pela alma do desavisado andejo

AC




MEU DOCE LAGO

                                
                   (baseado no filme " As horas")

 

A dor me invade; sou toda tristeza.
Imagino-me submersa em um lago tranquilo,
doces águas.
Não grito, não temo;
simplesmente não sinto que existo.
Os dias me compelem,
a tristeza é um vergalhão que carrego comigo
atado à cintura, aos pés
e  mãos de cadeado.
Tenho grades em volta do coração
e um sussuro ermo e perdido,
um pedido que aceita conformado
o que não lhe é oferecido.
Estou na lacuna da frase,
na palavra que não se encaixa
mas quem tem sim algo a dizer.
Mas da garganta, só o susurro cansado.
Embaixo da água, sou a sereia que não quer ser ninguém.
Remeto-me à calma das águas paradas
e espero, pacientemente, a respiração acabar.
Irei afogar-me no meu lago cristalino,
refúgio que abarcará meu último suspiro e
finalmente, minha última dor.

AC







sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ELA, ELIS



Tenho o que mais belo construí;
e como pude fazer você?
Tão bela, tão perfeitinha;
cinco dedinhos em cada mão!
Lindo sorriso, doce cabrocha,
passarinho emplumado, veludo azul,
perfume de flor, encanto dos deuses,
feitiço de fada.
E que mais amo em você?
Difícil escolher!
Boca de boneca, corpo
de cetim, beijos tão macios.
Amo a cor do seu cabelo;
raios de sol a se por,
delicado vermelho outonal.
Amo muito mais o seu sorriso!
O que destrói corações,
aberto e muito franco,
divertido e expressivo,
incrível espelho da sua alma!
Quero o seu jeito moleque
e sua aura tão colorida.
Admiro a sua despretensão
ao fazer-se tão querida.
Amo tudo, e mais ainda
o pezinho delicado
e mesmo o gênio safado.
Ah, minha glória, minha essência,
tatuagem em meu coração,
nada mais me fragiliza,
riqueza minha, doce Elisa!

AC








MARTELO



 
Meu coração despediu-se da sorte,
impeliu-se ao acaso,
num anúcio de morte premeditada.
Fechou-se para o arco-íris,
para as causas das minorias,
os sofrimentos alheios.
Dane-se a vida!
Com seus moribundos a pedir-nos
compaixão!
Meu coração é mísero silêncio.
Não quer mais alegrias ou dores,
já que a vida as oferece todas
e sem aviso.
Existem casos assim,
onde na medicina o coração
para antes dos sonhos,
das delicadezas,
dos simples cuidados.
Nem estes quero mais!
Não quero curar-me, tratar-me,
quero o branco esquecimento,
reflexo exaltado como o abrir dos olhos
diante de uma luz forte, que cega
o que afinal não quer mais ver.
Meu coração virou casa de bicho
empalhado,
jardim sem planta,
planta sem chuva,
reflexo vazio do que
não mais se movimenta
e que também não mais ama
nem sente,
não teme
nem sofre.

AC

 

DORMÊNCIA

 
Eu gosto da dor,
a que me fere e me trai
pelas costas.
A que me pega desprevenida,
lancetando-me com uma espada
dura e fria em minhas entranhas.
A que não me poupa, não se comove,
cheia de indecente tortura.
A quem vem por trás e me passa a perna.
A que me tira do meu mundo encantado,
da minha casinha de doces roubados.
A que me transfigura, a dor que não
me consome mais, mas ainda me dói.
A que muda meu olhar calmo, perene
ilusão como a artificialidade
do céu azul.
Aquela que rouba minhas lágrimas;
o mais belo que carrego comigo,
seja lá o que isso for.
Como a face fria da morte,
a dor me traz à tona a realidade
provável, tacanha e mesquinha.
A dor é meu conto de fadas
ao contrário,
os fantasmas que puxam meus pés
e sugam minha alma.
Alma pra quê?
Amar pra quê?

AC