Hoje, ao dirigir, atentei-me à agitação frenética das ruas.
Cabeças espetadas nos pescoços, passos rápidos diante da vida, que por si mesma passa despercebida.
A vida corre diante de nós e nem nos damos conta disso.
Aprendemos a dividir o tempo, a contar o tempo, a exigir o tempo, a desejar mais tempo, e o que deveria ser somente uma sucessão natural de eventos torna-se um comboio descarrilado de necessidades aflitivas, de urgências e carências que nos pesam.
Nesta louca frequência na qual encaixamos nossas rotinas, nossos cérebros se embotam. Não pensamos.
Agimos e reagimos.
Trabalhamos, dirigimos os carros sem dirigir nossos momentos.
Não degustamos, engolimos.
Não vemos, olhamos.
E, parafraseando o famoso poeta, quando se vê, já se passaram horas-dias e anos.
Hoje, ao dirigir, olhei ao meu redor e aquele meu velho pensamento recorrente ressurgiu: em cem anos, quantas destas pessoas estarão aqui?
Cem anos. Muito pouco para tantas dúvidas, incertezas, desejos e aspirações.
AC

NOTA DA AUTORA: Um dos quadros mais famosos de Van Goh, o Trigal com Corvos, mostra três caminhos alternativos sob um céu pesado e repleto de turbulência. Talvez o retrato da angústia e incerteza do final da vida deste pintor, que o acompanharam desde sempre.
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