O tempo ficou velho.
Tu, que te apossas das horas rápidas da infância
e embriaga com a doçura ingênua da mocidade
que um dia julgamos eterna.
Mas, tu, tempo, também envelheces.
Não é só em nós que levas a mocidade
e traz a desilusão da maturidade,
a percepção dos sofrimentos alheios
que subitamente se tornam tão agudos!
Como que um anteparo para prever
a solidão amarga da velhice,
aquela que um dia, de uma hora pra outra,
começamos a perceber em nossos pais.
O capítulo dos pais.
Um dia heróis,
tão ativos e envoltos em suas vidas
como somos agora.
E vemos a fragilidade nos dedos que se enrugam
na surdez que domina
no andar mais delicado
nas palavras que se embaralham na mente cansada
dos anos.
É difícil, tempo, assistir ao outono dos pais.
Mas tu, tempo, também envelheces.
Não é só a nós que também levas, sorrateiramente,
para longe do desfrutar da vida.
Não é só a nós que vais tomando de assalto
em mechas brancas, juntas doloridas,
saudades do passado que se avoluma.
A vida, tempo, sempre parece mais doce no pretérito longínquo.
Mas tu, tempo, também envelheces.
Ao nos enveredar na passagem pela história,
nos curtos, breves e doidos versos
que vamos escrevendo,
no dissabor do não entendimento do para quê e porquê...
Tu, tempo, ao tempo que nos leva nessa estrada
também junto caminhas nela...
E também é teu o assombro da vida rápida,
do trem apressado que nos transporta,
destino em destino.
E se carrego comigo um pouco de ti,
então é certo que, neste mundo,
mais do que todos que já viveram,
tu já morrestes milhares de vezes,
em cada vida que precisa se apossar de ti
somente para depois deixar-te ir embora.
AC
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