Coleciono objetos em um quarto:
orquídeas, esmeraldas e bela seda.
Guardo chaves de locais inexistentes
sabe-se lá o que um dia abrirão;
segredos escusos guardados no porão da mente!
Repousam taças de vinhos envenenados
e pedaços da arca de Noé sem animais ou valentes.
Cultivo papoulas proibidas
e passeiam gatos narcisistas
entre as joias de outrora, de um passado renitente.
Dentro do quarto, ora tão amplo, ora sombrio
estão, meu amor, teus olhos azuis (de um azul distante).
E à porta avante, retêm-se o calor e o frio.
Alço as palavras em presilhas suspensas
e ficam no ar, a balançar, assim propensas.
Sementes de girassol que nunca plantarei,
sonhos tão vívidos que em filmes registrei,
de tudo um pouco assim eu coleciono.
Somente no quarto não consegui guardar
uma preciosidade de valor inigualável
que nos dá tanta avidez e tanto alento.
Dentro do quarto, não tenho como parar o tempo.

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