Ontem, revolvendo fotos familiares queridas e antigas, deparei-me com um classificador pequeno de desenhos toscos meus, bem infantis, guardados por meu pai.
Havia desenhos muitos ruins de várias idades, e os primeiros sempre com uma dedicatória carinhosa que dizia algo como, " para painho, dedico esses desenhos" ou coisinhas do gênero.
Um bilhete animadamente inesperado continha a seguinte frase, em.letras bem pequeninas, mas não por isso, menos irritadas
" Painho, faça o favor de arrumar o lençol e a fronha do meu quarto qdo dormir nele".
Editor de jornal e sem uma relação minimamente funcional com minha mãe, meu pai usava meu quarto para dormir praticamente o dia todo, exceto as noites, qdo partia pra redação do jornal, deslocando-me desde cedo para dormir na cama de casal com minha mãe.
Meu pai nunca foi um pai presente, não era desafetuoso de todo, porém nunca me levou um dia sequer à escola, e foi um pai " de 15 em 15 dias" que me levava ao shopping qdo se separou de minha mãe.
Entretanto, e para minha surpresa, ali estava, guardadinho, uma mini coleção de desenhos bobos meus, numa singela demonstração de afeição mínima, presumivelmente carregado de algum sentimento de orgulho, por serem desenhos endereçados a ele, numa nítida relação parental filha-pai.
Meu pai foi um homem que viveu bem sua vida. A sua, e a de mais ninguém. Dos 4 filhos, talvez por ser mulher, recebi um pouco mais de sua afeição e pude ter contato e ver se revelar pela sua linda escrita e seu jeito um tanto tresloucado. Mas, confesso, aquele comportamento bizarro, aquela quebra de regras, de uma certa forma sempre me fascinou.
Hoje fui tentar tirar um cochilo de tarde, e lá se foram facilmente 3 horas do meu dia.
Nos meus sonhos, um tanto qto distopicos, sempre em casas ou lugares em que nunca morei, minha mãe sempre está lá.
Nao a mãe dos 80 anos, mas a mãe dos 40 anos, aquela mãe linda, preocupada, ativa e atuante, a minha heroína e matriarca.
Quando cresci, e sobretudo cresci após os 30, a luz de minha mãe foi se ofuscando em varios sentidos. Talvez enxergar ela ir abrindo mão aos poucos de viver uma vida, embora sempre fosse muito viajadeira graças a Deus, me fez ir perdendo o encanto de uma mãe maravilha, ousada e absolutamente corajosa.
Sempre me senti muito amada por minha mãe, e da vida posso afirmar com 100% de certeza que tive, sim, muito amor, apesar de um irmão que não se comunicava com ninguém dentro de casa e uma certa promessa quebrada de uma verdadeira família, após a separação dos meus pais.
Tenho recordações de viver uma solidão absoluta dentro de mim. Muitos anos mais nova que meus irmãos, sem crianças próximas para brincar, acho que me tornei solitária e pragmática muito cedo. Apesar do amor da minha mãe, senti a falta da presença de um pai, e isso foi uma dor surda que demorei anos a mesmo descobrir. Acho que me tornei mestra em me fazer autossuficiente da necessidade efetiva de um pai.
Bem, me vinguei de meu pai qdo, na minha formatura, fiz minha mãe entrar de braços dados comigo e o deixei, caladinho porém ciente das minhas ações, nos assistindo sentado no auditório.
Minha mãe sempre está nos meus sonhos, aquela mãe que eu reverenciava e referenciava. Aquela q resolvia tudo, que era uma protagonista, e eu algo entre abnegada e irritada, aceito esse papel de filhinha da mamãe nos meus sonhos.
Nos meus sonhos, meu pai nunca está lá.
O tempo passou e eu não me tornei uma boa filha. Resumindo e olhando para um breve " trás ", não aceitei substituir aquela mulher incrível e heroína por uma senhora frágil, dependente emocionalmente, angustiada e ansiosa. Ah, mãe! Nem duas filhas que tive parecem ter lhe feito feliz. E como eu chorei sozinha, entre a culpa e o desejo de simplesmente lhe ver um pouco feliz em sua velhice, realizada com a grande mulher que você foi em seu próprio tempo.
Aprendizados? Inúmeros.
--- meus filhos terão o melhor dos pais
--- não serei para meus filhos um laço de dependência emocional.
Os pais são um espelho em que muitas vezes nos vemos, reconhecemos traços tão comuns! Mas também que serve para nos guiar das escolhas menos afortunadas, numa tentativa de correção de direção.
Hoje, com duas filhas, agradeço imensamente à minha mãe o amor q com ela aprendi e repassei, com a pequena correção de rota de entender que os filhos são seres emocionalmente alforriados de nós.
E meu pai, apesar de tanta sua ausência, me ensinou a não ser tão contida assim, permitindo-me um pouco de loucura e digressão.
AC
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