Quando bem velha for,
lá pelos meus 150 anos de idade,meus olhos, opacos, ainda poderão brilhar.
Enxergarei no escuro, ouvirei no mundo do silêncio
e anteciparei os fatos, escaldada das ilusões
e da realidade, no alto da pirâmide que subi.
Terei mil sonhos, com a licença de ser louca.
Somente os bem velhos e os loucos podem
sê-los e passar indiferentes!
Minhas lembranças serão muito vívidas,
do ontem e anteontem que vivi.
E meus sonhos serão muito coloridos,
pois eles persistem em viva guache dentro da mente.
Terei ossos de cristal fino, frânces e bem cuidado.
Terei pintas estelares e manchinhas solares
contando a geografia do meu corpo.
Mãos de pele tão delgada quanto o embrião que
já fora outrora.
Cabelos quase azuis, mas terão o último corte da moda.
Não serei cafona.
Continuarei poeta.
Minha família, já tão numerosa que não saberei contar,
me reservará o canto do lado da mesa.
Tirarão fotos, colocando-me no centro, entre gentes,
associados, gatos e cachorros.
Eu terei para todos o sorriso delicado de quem
conversa com flores, sente a carícia de fantasmas
e não pretende mais entender muito o mundo.
Não precisarei pagar contas e
assistirei ainda a muitos filmes, aqueles
que desbravam a antropologia selvagem que nos cerca.
Ainda me espantará a bondade e a maldade.
Continuarei xingando os otários.
Detestando os burros e sobretudo os pobres de espírito.
De tudo que perderei na minha identidade,
algo corroída entre rugas e esquecimentos,
acho que persistirei sem sentir medo da morte.
A esta altura, talvez a ciência já tenha me provado
a existência de Deus, mas nunca a do inferno.
Continuarei fã dos bósons de Higgs.
Talvez eles também já tenham comprovado a
interface dos universos paralelos, mas viajar
no tempo será ainda algo para meus trisnetos.
Bem, aos 150 anos não serei mais tão aflita- acho.
Não me tornarei hipocondríaca
conquanto todas as ites e oses e “Mals” me persigam,
mas minhas pílulas douradas
e minha genética privilegiada me manterão
pelo menos 20 anos mais jovem.
Sim, quero ser uma velhinha delicada.
E pretendo sinceramente não ser chata e sobretudo, acima de tudo, não usar fraldas.
AC

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