Sobre o que somos:
Não acredito realmente que somos algo maior ou que tenhamos algum privilégio por sermos seres cientes em um mundo que parece saber caminhar por suas próprias pernas.
Tantas vezes, me parece perfeito pensar que tanto o caos como leis simétricas, aritméticas e semiperfeitas ditaram ou ditam os rumos da vida e evolução.
O mundo caminha a despeito de nós, muito antes de estarmos aqui, e assim o será muito depois.
Então, que somos nesta grande teia infinita do universo? Que ponto distante representamos nós, irrelevantes, desvirtuados de um destino conhecido?
Na caixa cinza e branca do cérebro, é certo que precisamos firmar acordos para aceitar nossa própria existência, assim como precisamos de gavetas para organizar as sensações.
Assim, precisamos criar o tempo, para compreender a passagem dos eventos.
Precisamos reter memórias, para criarmos histórias coerentes.
Necessitamos explicações para os processos, nessa infindável busca por autoconhecimento.
Havemos que entender, explicar, conjecturar, aceitar, modificar.
E nos deparamos com o maior enigma de todos, aquele que nos paralisa, e que desde o nosso nascimento dá as cartas para as nossas próprias escolhas, na vã tentativa de adiar ou ludibriar o que tantas vezes é mesmo inaceitável.
Ó morte, por você, e não pelo nossa significância dentro do universo, é que criamos deuses, oferendas, tradições, sociedades e culturas.
Para protege-nos da morte, elaboramos significados variados para a vida.
Dentro do caldeirão absolutamente despretensioso para a vida: se hoje chove pouco ou faz sol, se é segunda ou quinta, se são dez horas ou se é meia noite, é certo que entender a si mesmo como uma peça igualmente desimportante do quebra cabeças do mundo pode trazer desconforto, desorientação e incômodo para os nossos cérebros mimados.
Mas é certa que essa reflexão se faz necessária para entendermos que de fato nada representamos de maior ou especial, em um singelo exercício de humildade.
AC
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