A felicidade não bate à minha porta.
Ela me espreita ao longe e zomba das minhas
necessidades.Posso viver sem ela, pois quando o dia é claro me distraio
com o calor quente e a movimentação das ruas,
e quando o dia é sombrio nada mais espelha
do que a minha própria e tenaz tristeza.
Tento levar adiante este projeto insano da vida,
seus símbolos sempre tão misteriosos,
todas as teorias que apontam para a existência incongruente.
Estou cheia do vazio, que é imenso e me ocupa por inteiro.
Me domina e possui não só meu corpo;
possui minha delicadeza, minha mocidade,
meus desejos pintados em mente.
Mesmo que não me visite com a frequência e a necessidade que tenho,
não posso permitir que o horizonte longínquo me cegue por completo.
Mas, confesso, é difícil enxergar em branco e preto,
aceitar as verdades que a vida ensina,
desejar seguir adiante.
As portas estão na maior parte do tempo abertas, escancaradas,
sem vergonha da devassidão das suas urgências afetivas.
Mas a felicidade, ainda que passe de soslaio,
nunca se sente confortável para entrar, sentar, bater um papo e brincar...
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