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sábado, 3 de março de 2012

ABANDONO



Estou tão dividida:
entre amar a mim ou a outrem.
Pois não sei se há sentimento para ambos.
E sou assim.
Caminho o tortuoso rio
onde em uma margem,
há os meus desejos
e do outro lado,
os não alcançáveis.
Na ilusão pueril da minha infância
pintei um retrato que não tive:
um pai presente.
E depois desfiz-me da imagem
quando em mim pouco restava de inocente.
Desde então, não pinto mais retratos;
tiro fotos, instantâneas, dos momentos.
Neste rio onde trafego, tenho dois remos.
Ou muitas vezes, jogo-me ao frio,
sem este barco,
braços semi-afogados
quase a alcançar a outra margem tão longínqua;
Nesta viagem em que se investe a própria vida,
entre as braçadas, vou fechando as feridas.
É da vida se ferir e seguir adiante.
E nesta outra margem, tão difícil e tão distante,
vou consumindo meus sentimentos aos alheios.
Me dividi: não quero mais nadar à sorte dos sorteios.
 
AC

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